setembro 19, 2014

Sobre o meio termo

             Sempre defendi, de unhas e dentes, a prática do tudo ou nada: se não é oito, que seja oitenta. Nunca achei graça no meio termo. Desde criança, ao ser censurada por querer comer chocolate antes do almoço, eu esperneava até conseguir o aval da minha mãe. Ela, após incessantes tentativas de sanar minhas birras, permitia-me degustar somente alguns quadradinhos, e eu, não satisfeita, protestava contra aquela concessão: que tipo de pessoa, em sã consciência – pensava eu - , conseguiria sentir prazer comendo tão pouco? Se não fosse para eu me deliciar com uma exacerbada quantia, melhor, então, nem começar a comer. Dramática e rebelde, como sempre, eu pentelhava mais um pouco e, caso não conseguisse o que queria, dava um jeito de capturar a barra toda e comê-la escondida.
            Na pré-adolescência, com um quê de maturidade surgindo das minhas entranhas, as birras cederam lugar ao drama pseudo-controlado, ou seja, aquele protesto que, embora não se utilize das artimanhas das lágrimas e esperneios, ainda sim é um tanto quanto imaturo, pois, se recebe um “não”, logo trata de plantar, no ser dramático em questão, um comportamento pueril e, muitas vezes, suicida. Sim, diversas vezes já jurei que iria me matar. Fazia conjecturas inimagináveis: trancava-me no quarto e escrevia cartas de despedida e, logo em seguida, ficava olhando fixamente para debaixo do meu prédio, na tentativa de resgatar, no meu âmago, uma pontada de coragem para me jogar do alto. Obviamente, o drama era compelido pelo tempo (santo tempo – cura tudo!), e eu, desistia da ideia de tirar minha própria vida.
             O fato é que, em diversas situações da minha vida – até hoje - , eu consegui o que queria por meio do melodrama. Gestos exagerados, choros e ranger de dentes eram apenas algumas das minhas armas. Hoje em dia, minha munição é a palavra – seja ela falada ou escrita. Argumento com todo o meu ódio (ou amor) acerca de diversos assuntos: defendo-me, brigo com alguns amigos que não possuem a mesma opinião que eu, faço postagens dramáticas no facebook reclamando de algumas coisas... Esse é o jeito mais comedido que encontrei – muito embora alguns creem que essas atitudes ainda sejam imaturas – para expor minha opinião. Como já disse: comigo, ou é oito, ou, oitenta. Ou talvez até mesmo oitocentos. Não costumo permanecer calada – mesmo em discussões “irrelevantes” de mesa de bar – e, quando abro a boca, já solto os cachorros (e muitos outros bichos). Nunca cheguei a perder um amigo por conta de discussões cotidianas. Muito pelo contrário: acabo me aproximando de certas pessoas, pois, particularmente, eu amo discutir e argumentar (saudavelmente!) sobre as coisas.
             Mas, vamos aos finalmentes: você deve estar achando que eu darei dicas sobre como tentar controlar o gênio forte/irritadiço ou sobre como sair da zona de conforto (para os tímidos de plantão) e ousar um pouco mais. No entanto, a verdade é que, mesmo se eu quisesse, não conseguiria fazer essa proeza. Assim como os calados e/ou tímidos aceitaram suas condições, eu também aceitei a minha: sou, realmente, falante e dramática (além de totalmente estressada!). O primeiro passo para uma melhora, penso eu, é justamente assumir sua condição primária (no nosso caso, posição essa de extremos). Não estou fazendo apologia às resignações, porém, a meu ver – como já disse no início do texto - , não vejo mesmo a graça do meio termo. Admiro pessoas equilibradas e comedidas, mas, sinceramente, não gostaria de ser assim. Posso morrer de hipertensão, cólera, ataque fulminante, raiva ou até mesmo de drama. Não me importo: aceito a condição. Acredito que os tímidos também levem vantagem em alguns momentos e, por isso mesmo, devem ter um certo apreço por suas personalidades. Quem é que não vê charme no silêncio de um tímido? Ou, talvez, no leve rubor das faces desses “misteriosos”? E, se você é equilibrado – consegue controlar seu estresse e/ou dosar silêncio e conversação - , meus parabéns! Tome um banho de sal grosso, pois você é invejado por mais da metade dos seres humanos.
            Em meio a silêncios e ataques de nervos, vamos levando nossas vidas. Eu, particularmente, calo-me por inteira ou explodo-me em minha totalidade. Se você, ao contrário de mim, busca o meio termo, desejo-lhe boa sorte em sua jornada. Adianto-lhe que não será fácil: o equilíbrio é uma das maiores virtudes do homem, no entanto, é difícil de ser atingido. Mas, se você, assim como eu, prefere as bordas, os estouros e os dramas bem construídos, desejo-lhe ainda mais sorte: ser extremista dá mais dor de cabeça que ressaca de ano novo. Mas, cá entre nós: quem é que nunca tomou um pileque no primeiro dia de janeiro?
            Nati Ribeiro

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