sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Sobre os vícios

Ouvi, certa vez, alguém dizer que nós – os jovens – somos a geração “só a cabecinha”. Não pude conter o riso. De onde haviam tirado essa expressão? Ou melhor: o que quiseram dizer com ela? Creio que todos nós já tenhamos, ao menos, um palpite de onde veio a dita cuja. Sendo assim, fica faltando, somente, a resposta à segunda pergunta.
Tirando a conotação sexual – que é, obviamente, a primeira que nos vem à mente - , sobra-nos uma gama muito elevada de possibilidades para o uso dessa expressão. Você já deve estar imaginando mil coisas, mas, eu posso lhe garantir que não é nada proibitivo ou que necessite ser censurado. (Será?)
Após uma discussão em sala de aula acerca dos vícios, descobri o sentido no qual a expressão foi empregada (pela revista Galileu, inclusive – em uma reportagem extensa e muito bem feita): nossa geração é “só a cabecinha”, pois não consegue penetrar afundo nos assuntos, ou seja, não tem capacidade para se especializar em algo específico, tendo em vista a grande facilidade que temos de nos distrairmos. Tá, tudo bem, eu confesso: o sentido empregado é levemente relacionado ao sexual. Mas, tirando a parte do “penetrar afundo”, o resto é bem brando, certo?
Mas, afinal de contas, qual a causa de sermos tão distraídos a ponto de recebermos críticas tão severas das gerações anteriores? Por que não conseguimos focar naquilo que é realmente importante? Bom, como o próprio título da coluna da semana já mostra, somos viciados em tecnologia. E esse nosso tão amado avanço da sociedade pode, infelizmente, atrapalhar nosso desempenho em muitas outras coisas.


Começamos pela internet, no fim dos anos 90, ou, talvez, em meados dos anos 2000. Aquela maravilhosa conexão – discada – que demorava mil anos para conectar, caía a todo momento e, para completar, ainda nos restringia ao uso de somente alguns minutos (tanto pelo elevado preço, quanto pelo empecilho de se cortar a linha telefônica no momento da conexão). Jamais imaginaríamos – nós, que jogávamos paciência e campo minado no computador – que, um dia, poderíamos passar horas e horas (até mesmo o dia todo) conectados na internet, olhando tudo aquilo que nos interessasse (ou não!).
Quanto ao celular, então, esse nem se fala. Quando, em sã consciência, imaginar-nos-íamos tão dependentes desse pequeno objeto, que, cá entre nós, ajuda mais do que atrapalha? Pois é, pois é... Mas os tempos mudaram e, graças a Deus, podemos, hoje, desfrutar das maravilhas tecnológicas que nos são oferecidas a um preço bem acessível na maioria das vezes.


O grande problema, porém, é justamente o uso indiscriminado desses aparelhos, que, embora nos pareçam inofensivos, são, na verdade, os diminuidores da nossa capacidade de pensarmos por nós mesmos. Sim, podem reparar: hoje em dia, somos extremamente dependentes de GPSs e afins. Não conseguimos fazer uma conta sequer sem uma calculadora (de celular, obviamente!). Guardar alguma informação então, nem pensar! É para isso que serve o bloco de notas, certo? São nessas pequenas atitudes rotineiras que, ao longo do tempo, vamos atrofiando (Deus me livre!) nossos cérebros.
Então, a dica que eu dou a vocês é: não deixem de exercitar a mente de vocês com algo mais específico, seja um livro ou um filme mais denso. Além disso, tentem sempre recordar de assuntos que vocês consideram importantes e, após feito isso, pesquisem ainda mais sobre eles. Não faço – nem farei jamais (logo eu, a viciada em celular!) - apologia à vida “do mato”. Vivemos em pleno século 21 e precisamos, sim, beneficiarmo-nos das vantagens oriundas das tecnologias. Porém, como eu já tinha dito em posts anteriores: a vida é baseada no equilíbrio. A partir do momento que essas tecnologias começam a se tornar o centro de nossas vidas – atrapalhando não só nossas capacidades cognitivas, como também nossas relações interpessoais - , aí sim é o momento de pararmos para pensar (não só para pensar, ok?!) e mudarmos alguns de nossos hábitos.

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O pouco que diminuirmos do uso dos celulares, por exemplo, já poderá nos propiciar momentos maravilhosos com nossos pais ou com nossos amigos, por exemplo. Além disso, nosso cérebro, caso comecemos a trocar alguns minutos na internet por minutos nos livros, não só deixará de atrofiar, como, também, começará a crescer. A internet pode, sim, ser aliada do conhecimento e/ou das relações interpessoais, mas, devemos nos lembrar que, como ela tem o poder de nos distrair muito mais – através dos diversos links que nos “tentam” a todo o momento - , talvez seja melhor procurar outras formas de obtermos conhecimento e nos relacionarmos afetivamente. Afinal de contas, nada melhor do que sair dessa fase do “só a cabecinha”, certo?
      
      Nati Ribeiro

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