setembro 05, 2014

Sobre imprevistos

            Na semana passada, após o término da minha aula, resolvi passar uma tarde com as amigas. Louca por piercings e tatuagens – como sempre fui - , acabei combinando com uma delas de ir furar (mais uma vez!) a orelha – apenas um lado, bem discreto, somente, talvez, pela dor prazerosa que aquilo me causa.
            Após alguns minutos de ócio na entrada da minha faculdade, resolvi esperar minha companheira de piercing – que estava em uma reunião -  em uma festinha que estava acontecendo. Tradicionalíssima no meu curso, a confraternização, chamada “café” - recebeu esse nome por acontecer sempre de manhã, nunca à noite - , é uma mistura de bebidas, risadas e muito, mas muito sol.
            Por não termos autorização para realizarmos eventos dentro da faculdade – mais precisamente no ICC (Instituto Central de Ciências) – os cafés ocorrem, sempre, no estacionamento das Tetas da Madonna, como é mais conhecido o Centro Comunitário Athos Bulcão. Como já é de se imaginar, a área não é coberta e, por isso, o sol incide como labaredas do inferno em nossa jovial cútis.
            Não bastassem o sol incidindo sobre minha cabeça – e eu, obviamente, já colhendo os resultados de uma bela enxaqueca solar – e as pessoas bêbadas proferindo frases sem nexo, minha amiga não chegava. A reunião, pelo visto, iria durar muito mais do que eu havia imaginado. Cansada de esperar, ansiando por um saboroso almoço – com muita beterraba (o desejo, quando bate, ninguém segura!) - e um gélido ar condicionado, resolvi, então, pegar carona com minha outra amiga para almoçarmos no Brasília Shopping.
 
             Chegando lá, o paraíso: friozinho artificial (só assim para amenizar as chamas de Dante), comida deliciosa (com muita beterraba...) e roupas, muitas roupas - segurei-me, obviamente, para não gastar minhas economias nas lojas que ainda estavam em promoção. De barriga cheia, fomos ao Conic (prédio onde eu iria fazer mais um furo). Atrasada para buscar a irmã, minha colega de almoço – que não iria fazer piercing algum (somente me acompanhar) -  acabou apenas me deixando na porta do edifício e, logo em seguida, foi embora. Eu, já com medo – aquela região é um tanto quanto perigosa - , continuei esperando minha amiga sair da UnB – ela já havia terminado a reunião e estava a caminho do Conic.
            Tempo vai, tempo vem, e nada da aparição da minha comparsa. Irritada, liguei para ela, no mínimo, umas dez vezes. A vagabunda nem sequer me atendia. Imaginei-me com uma faca, degolando seu pescoço com toda a lentidão que ela merecia, só para ter uma morte bem lenta e sanguinária. Não sou violenta, fiquem tranquilos, mas, quando se está com cinco por cento de bateria restantes em um lugar um tanto quanto “duvidoso”, a preocupação – e o instinto viril -  vem à tona.
            Finalmente, após quase uma hora de desespero – e muita espera - , ela me atendeu. Na expectativa de ouvir um “alô”, surpreendi-me ao ouvi-la proferir – em voz de choro: “Amiga, bati o carro de novo! Bati feio!”. Imaginei-me no próprio “Ice Bucket Challenge”: um balde de gelo acabara de cair em minha cabeça. Toda a minha preocupação – e raiva – haviam sido em vão. No lugar do ódio e do medo, fui tomada por um sentimento de culpa, pois, afinal de contas, eu havia sido extremamente egoísta em me preocupar somente comigo, sem ter sequer cogitado a possibilidade de algo ruim ter acontecido com ela. 
            O desenrolar da história, agora, não vem ao caso (vou deixá-los curiosos mesmo!). Só posso adiantá-los que, após algumas horas, demos boas risadas do carro batido e de toda a situação tragi-cômica ocorrida. O que importa, portanto, é a lição que tirei disso tudo: imprevistos acontecem. E, já que não há como fugir deles, que estejamos sempre prontos para enfrentá-los e, claro, amadurecer com eles. O famoso – e clichê número um – ditado “Se a vida te der limões, faça uma limonada” é a maior verdade e, sendo assim, que consigamos, sempre, rir de nossos imprevistos, pois, segundo minha amiga (sim, essa que bateu o carro): é rir para não chorar...
            Rir, rir, rir. Que riamos de tudo. De todos. E, principalmente, de nós mesmos.

Nati Ribeiro
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