sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Sobre transtornos

Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que minha mãe me obrigou a comer uma porção de pasteizinhos de carne e a tomar um copo de suco de laranja de 300 mililitros. O motivo? Minha súbita queda de pressão por não ter comido direito nas semanas anteriores. Princípio de anorexia. Eu tinha apenas nove anos de idade.
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  Por sorte, saí dessa antes mesmo de ter entrado. Estava com o pé na cova, mas, graças ao pulso firme da minha mãe, livrei-me de um dos mais graves distúrbios da contemporaneidade – se bem que há relatos extremamente remotos de anorexia por aí. Chorei como se houvesse perdido um ente querido. De nada adiantou meu drama: tive que comer tudinho, sem deixar nem mesmo uma migalha. Do copo de suco, não sobrou um gominho de laranja sequer.
  Demorei um tempo para me curar dessa neurose. Mas, por ela ter sido descoberta no início de seu desenvolvimento, consegui me livrar de todos os tormentos de uma adolescência regada a culpa e depressão. Não posso dizer que nunca mais tive recaídas, mas posso afirmar, com toda a certeza, que estou isenta de todo e qualquer resquício que possa me fazer ter essa doença.
  Até meus 14 anos, lutei contra o sentimento de culpa cada vez que comia um pouco mais do que o necessário. Só não virei bulímica pois não conseguia vomitar. Tentativas não faltaram: escova de dente na garganta foi, por muito tempo, minha sobremesa. Quando eu, finalmente, percebi que “chamar o Raul” não seria uma possibilidade palpável, comecei a reduzir minha ingestão calórica (não que eu contasse as calorias, mas, visivelmente, eu estava comendo bem menos que antes).
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  Após os 14, a onda de querer “encorpar” tomou conta de mim. Comia igual a um cavalo: ao menos uma vez na semana, meu almoço era uma promoção do cheddar do McDonald’s, mais duas trufas de chocolate da cacau show, mais ¾ de uma barra grande de chocolate da Hershey’s (às vezes, as últimas eram substituídas por uma tigela de fondue de chocolate branco e ao leite, com uma porção de morango e banana).
  Engordei quatro quilos. Parece pouco, eu sei. Nunca tive tendência a engordar. Minhas amigas ficavam horrorizadas quando íamos ao rodízio de comida mexicana perto da minha casa (toda sexta-feira!): eu, realmente, comia muuuuuito! Mas, ao perceber que esses quatro quilos extras estavam, na verdade, indo para a minha barriga e para as minhas pernas – que já começavam a ficar “moles” -, resolvi entrar na academia. A onda da “marombice” chegou mais cedo para mim: com apenas 15 anos, eu já era aspirante à mulher melancia.
  Até o início do ano passado, meu objetivo era sempre ganhar mais e mais músculos. Em março, após entrar em um concurso de Miss, foi-me feita a recomendação de emagrecer dois quilos – não era um requisito obrigatório, mas, sim, um conselho. Perdi-os facilmente – já que nunca tive, realmente, a dificuldade de emagrecer. Muitos dizem que o motivo da minha súbita perda de peso foi o concurso e, consequentemente, a abertura das portas do mundo da moda para mim. No entanto, eu sei que não foi. Resolvi emagrecer por conta própria.
Primeiramente, eu já não mais aguentava ser escrava de uma dieta que não me deixava comer em um intervalo maior que três horas. Impanturrava-me de frango e de pão integral, sem nem ao menos ter visitado um nutricionista para saber se estava fazendo o “regime” corretamente. Além da escravidão de horários, havia todo um mal estar – praticamente diário – oriundo da superdosagem de proteína. Ao perceber que estava estragando meu organismo – e meu humor -, decidi mudar meu estilo de vida.
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  Hoje em dia, não passo mais vontade: como de tudo um pouco – tento fazer das minhas refeições as mais prazerosas possíveis. Dieta sem glúten e sem lactose? Jamais! Adoro um pão e sou amante dos queijos. Meu diferencial? Sou comedida. Mastigo os alimentos bem devagar, com o objetivo de adquirir saciedade mais cedo. Não consumo proteína em excesso: o brasileiro tem a péssima mania (influência cultural!) de achar que, quanto mais proteína, melhor. Essa obsessão por dietas hiperproteicas é oriunda da cultura norte-americana (que tomou conta do Brasil!), admiradora dos “marombeiros de plantão”. Por fim, não me sinto culpada caso saia um pouco da linha, pois, como já disse anteriormente, sou comedida e, se exagerei hoje, compensarei amanhã (sem neurose, é claro!).
  Dietas milagrosas funcionam – somente por um curto período de tempo. Após atingido o objetivo, o praticante dos “regimes de revista” é tomado, quase sempre, por uma sensação de vitória e, consequentemente (por já estar em forma), joga tudo para o alto e enfia o pé na jaca – com gosto.  Ocorre o que chamamos de “efeito sanfona”. Mesmo que a pessoa ainda não esteja satisfeita com o próprio corpo, há grandes possibilidades de ela, ainda assim, jogar tudo para o alto, afinal de contas, não existe nenhum ser humano de ferro. Ao passarmos por privações extremas, tendemos a descontar nossas abstinências em compensações futuras - muito maiores do que nossas supressões anteriores.

  Portanto, não se prive tanto. A vida é muito curta (na visão dos céticos/ateus/etc) para ser desperdiçada com desprazeres. E se você, assim como eu, crê em vidas futuras, não se restrinja mesmo assim. Pecar – tanto por falta quanto por excesso – pode não ser fatal, mas, muito provavelmente, destruirá toda a sanidade que ainda resta em nossas mentes fúteis (se é que ainda há algum rastro dela em nós).
 Nati Ribeiro

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