quinta-feira, 23 de abril de 2015

Sobre epifanias, diálogos superficiais e conexões profundas

Dia desses, uma colega de faculdade ficou presa no laboratório de rádio. Vítima da desatenção de um dos técnicos responsáveis pelas chaves do estabelecimento, ela relatou aos colegas o grande desespero que passou durante as horas que lá ficou, trancada e sozinha.
O celular não pegava, o isolamento acústico não permitia que o grito de socorro atravessasse a parede e tudo levava a crer que todos já haviam ido embora. O que restou a ela, após muito choro (e ranger de dentes), foi preparar um protótipo de cama e dormir, esperando por alguma alma caridosa que pudesse libertá-la do estúdio na manhã seguinte.
Felizmente, o responsável pelas horas de horror de minha cara colega percebeu o erro a tempo e libertou-a da prisão de isolamento acústico antes de o dia clarear. Foi apenas um susto. Mas, após o relato, peguei-me divagando acerca de certas prioridades em nossas vidas. E se ela tivesse ficado lá até o dia seguinte? Como seria o desenrolar da trama?

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A meu ver, as pessoas que muito prezam por ela – possivelmente só os familiares e amigos mais próximos – notariam sua ausência após algumas horas. No entanto, para todo o resto das pessoas, isso não passaria de um caso curioso, de uma fofoquinha de elevador. Ocorreu-me, em um certo momento de epifania, que nossas relações costumam ser estupidamente superficiais. Perguntamos se o outro está bem por pura educação.
Se eu estivesse presa em seu lugar, certamente teria pegado um livro para passar o tempo (jamais ando sem um livrinho qualquer: nunca se sabe o que pode acontecer). No entanto, o silêncio costuma nos torturar e, sabendo disso, ouso arriscar que eu, provavelmente, começaria a ter diálogos malucos em minha mente. Estar sozinho pode ser revelador. Ou assustador.
Estar sozinho, muitas das vezes, nos faz pensar naquilo que evitamos no dia a dia. Ou não: pode ser que estar sozinho nos faça pensar justamente nos acontecimentos cotidianos. Há quem utilize seu tempo a sós para “matutar” sobre os pepinos da vida, na tentativa desesperadora de resolvê-los da forma mais rápida e fácil possível.
Creio eu que, ao ficar sozinho, o ser humano se depara com seu verdadeiro eu: seus fantasmas, seus mais insólitos desejos e seus mais estarrecedores defeitos. Se é que a vida é feita de dois arquétipos – a vida e a morte -, então é certo que o indivíduo pensa neles ao menos uma vez por dia – direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente. E, já que esse tipo de pensamento é inevitável, o momento mais propício para ele surgir é quando se está só.
Não sei vocês, mas eu costumo falar sozinha com certa frequência. Após refletir um pouco acerca dessa atitude tão comum entre as pessoas (que muitos não assumem, inclusive), cheguei à conclusão de que falamos sozinhos na tentativa de sermos ouvidos. Ou melhor, falamos sozinhos pois queremos ser ouvidos – mas, como não o somos (pois ninguém se importa verdadeiramente) – então nos tornamos nossos próprios ouvintes.

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Para tornar a ideia mais clara: essa semana, após ter assistido a dois documentários com meu namorado, comecei a discorrer sobre as temáticas tratadas por eles. Falei durante todo o caminho de volta para casa, desenvolvendo minhas ideias na esperança de que ele as contestasse ou as acatasse. No entanto, a resposta que recebi dele foi a seguinte: “Já parou para pensar que você fala sozinha?” Estarrecida, calei-me durante alguns segundos e, após uma breve reflexão, disse que sim.
Menti. Eu nunca havia parado para pensar que falava sozinha. Na minha mente, as pessoas estavam escutando atentamente meu discurso e, se nada respondiam, era porque concordavam comigo. É óbvio que já havia percebido, algumas vezes, pessoas que não estavam tão interessadas em meus assuntos e apenas respondiam-me monossilabicamente – e por educação. A grande novidade, para mim, foi, no entanto, saber que muitas das vezes eu não estava nem mesmo acompanhada: a alma ao meu lado era mais etérea que o nada. Ou seja, eu realmente falava mais sozinha do que imaginava.

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O que me entristeceu – ao menos no momento (depois eu acabei aceitando a realidade) – não foi o fato de falar sozinha. A tristeza veio da revelação de que, mesmo cercada de pessoas – muitas das quais possuo um grande apreço -, eu ainda permaneço sozinha boa parte do tempo. A ilusão de estar rodeado de indivíduos torna o ser humano mais esperançoso. No entanto, a sociabilidade das pessoas é bem menor do que elas pensam. A volatilidade das conversas é enorme, mesmo quando conversamos com alguém que amamos.
Indo mais ao fundo, ouso dizer que as verdadeiras relações são aquelas em que há troca de essências – ao menos uma vez na vida. Não se chega ao âmago de alguém pelo tempo que se tem de relacionamento com ela, muito menos se conhece profundamente um indivíduo por meio de relações sexuais. Nada que está no corpo material deixa brecha para a abertura da alma.
As reais conexões são feitas por algo que ainda não decifrei. Ou melhor, arrisco dizer que já tive, sim, laços afetivos verdadeiramente profundos, mas, infelizmente, não sei explicá-los – é algo muito íntimo. Conectar a própria essência com a essência alheia é algo que pode demandar anos ou minutos. A real conexão pode vir na iminência da morte ou na mesa de um bar. Pode durar um segundo ou uma eternidade. Pode tornar a acontecer ou não.
Entender alguém de verdade – no mais profundo de seu ser – não é algo voluntário. Já vi pessoas tentando me agradar por meio do mais tenro esforço. Infelizmente, não houve o elo. Eu, por exemplo, já tentei me aproximar de pessoas que eu jurava serem cruciais para a minha trajetória, mas que, por algum motivo ainda inexplicável, não chegaram nem mesmo a ocupar um minuto da minha vida.
Ao perceber que, muitas das vezes, nem mesmo meus pais estavam interessados em me ouvir de verdade, reconheci a beleza das relações. Dei-me conta de que o belo é raro e que, portanto, não pode – em hipótese alguma – ser cotidiano. As relações superficiais existem com um único objetivo: aumentarem nossa emoção ao travarmos um elo de essências.
Se houvesse poesia em todo diálogo, não haveria momentos de epifania tão lindos e verdadeiros. É tão bom chorar por dentro, esgotar-se, encher o vazio de plenitude. As raríssimas vezes que isso acontece devem ser celebradas, ou melhor, devem ser realmente sentidas, para que possam ser lembradas nos momentos etéreos posteriores.

Portanto, ao perceber a volatilidade das coisas e das relações ao seu redor, não se entristeça: a alegria está presente na memória. Embora a essência não seja de fácil acesso, ela vale a pena. Toda a nossa pura e verdadeira alma vale todos os momentos superficiais vividos na terra. E se você nunca experimentou um momento de profundidade de relações, não se preocupe: você saberá quando acontecer. Será tão lindo que você se lembrará de minhas palavras. Ou, talvez, nem se lembre, pois estará ocupado demais chorado por dentro.

Natália Ribeiro

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