abril 10, 2015

Sobre falsas aparências, ostentação e simplicidade.

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O poder da simplicidade é ainda desconhecido por muitos. Certa feita, fui jantar em um belo – e caríssimo – restaurante com meu namorado. De início, pedimos um vinho. Até aí, tudo bem: nada de extraordinário em querer se sentir bem e esbanjar um pouco mais de vez em quando. A vida – como eu sempre digo – foi feita para ser celebrada. Qualquer motivo é motivo de comemoração. Na hora de escolher o prato principal, porém, meu namorado quis dar uma de “ricão” e inventou de pedir a opinião do chef da casa. O resultado foi o seguinte: penne alfredo para mim, e gororoba marrom impronunciável para ele.


Ele logo cresceu o olho em meu prato – simples e saborosíssimo, como esperado (alfredo nunca é má pedida!). Era nítida sua insatisfação com a gororoba sugerida pelo chef, mas seu orgulho era maior. Eu – que já havia o alertado anteriormente para não ir na onda desses chefs chiques demais – não cedi: fui saboreando meu prato sem nem ao menos oferecer uma garfada ao bofe. Com toda a intimidade que temos, ele acabou roubando um pouco do meu macarrão e, na tentativa de trocar de prato comigo, soltou um “nossa, amor, que alfredo ma-ra-vi-lho-so!”. Minha vontade, na hora, era a de tomar um banho de sal grosso: senti a inveja fulgurante do meu amado com relação à minha escolha.


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Minha resposta foi a de sempre: “sim, massa com alfredo é sempre a melhor pedida. Na dúvida, peça sempre massa.”. Ele, já percebendo o tom de ironia em minha réplica, foi ficando irritado. Ao se dar conta de que seu orgulho não o levaria a lugar algum, finalmente assumiu que tinha detestado o prato e resolveu pedir outra comida – uma massa, diga-se de passagem. Eu, que não compactuo com gastos exacerbados (nem com desperdício), resolvi propor a troca de pratos, para que ele não tivesse que gastar mais uma fortuna em outra dish – embora, no fundo, eu não quisesse comer a gororoba dele nem a pau. Ele, gentil e cavalheiro (como sempre), não aceitou a proposta e fez o novo pedido ao garçom.


Quando a conta chegou, percebemos que o valor do prato sugerido pelo chef não havia sido cobrado, bem como as sobremesas. Meu namorado, muito honesto, foi logo contactando o garçom para dizer que o valor da conta estava errado. O gerente interviu, dizendo que o prato não seria cobrado e que as sobremesas seriam cortesia, devido ao “inconveniente”. Atitude simples, mas que cativou mais dois clientes ao estabelecimento.


Nem sempre o mais caro é o melhor. O ser humano tem a mania de querer ostentar demais, sem necessidade alguma. É certo que há situações em que o caro realmente vale a pena. No entanto, na maioria das vezes, o que ocorre é o desejo de se mostrar mais do que realmente se é. O chef, muito provavelmente, sentiu-se na obrigação de sugerir um prato refinadíssimo – e caríssimo – com medo de indicar algo mais simples, uma vez que poderia parecer comum demais. Os restaurantes, às vezes, têm mania de requintarem o não requintável, ou seja, fazerem de um ovo frito, um prato da realeza.


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É certo que tal característica pode – e deve – ser uma jogada de marketing. Porém, o que ocorre é a decepção dos clientes: pedem um prato que, em princípio, era pra ser algo inenarrável, mas que, na realidade, nada mais é do que um simples arroz com feijão – só que apresentado em um prato com bordas de ouro e todo o resto que não preciso dizer, pois vocês já sabem.


Portanto, não queira parecer mais do que você realmente é. Se gosta de caviar, ótimo. Mas, se não gosta, pouco importa: um bom arroz com feijão também faz a vez. Não estou dizendo que o caro não é bom – muito pelo contrário, às vezes sinto no bolso o meu gosto por coisas mais “carinhas”. Mas há aqueles que preferem o simples, o “baratinho”, e não há nada de errado com isso (é até melhor pra eles!). Não tenha vergonha de preferir Cacau Show a Kopenhagen.


Isso me lembrou de uma certa saída com meu tio – divagando em minhas histórias em 3,2,1... - a uma creperia, em São José dos Campos, interior de São Paulo. Lá chegando, inventei de pedir um sabor todo exótico, na intenção de ostentar mesmo (eu era novinha e fútil!). Meu tio foi no tradicional: frango com catupiry (bastaaante catupiry!). No meio do crepe, eu já não estava aguentando. Meu queridíssimo tio percebeu e, com toda a sua ternura quase paternal, trocou de crepe comigo, mesmo eu dizendo – mil vezes – que eu estava realmente satisfeita com o meu. By the way, foi a melhor mordida de crepe de frango com catupiry da minha vida. Foi libertador!

Divagações à parte (chega de histórias de comida, né?), a conclusão é curta e grossa (ou seria curta e simples?): simplicidade é tudo na vida. Seja simples, mesmo quando estiver com vontade de ostentar. Não deixe sua futilidade passar por cima dos seus valores. No futuro, você perceberá que menos, na maioria das vezes, é mais. O poder da simplicidade é tão grande que chega a ser complexo. Só o que é verdadeiramente simples é essencial. Como todos já sabemos, exageros nunca dão certo. Portanto, cultivemos a simplicidade – em todos os âmbitos.

Natália Ribeiro

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