sexta-feira, 1 de maio de 2015

Sobre sinceridade pueril, mentira madura e decisões

Certa feita, uma criança - loira e de olhos azuis - abordou minha ex professora de espanhol para saber porque o cabelo dela era afro. Constrangido, o pai da menina ordenou que ela parasse de se intrometer na vida alheia. No entanto, minha mestre – muito sábia e bem humorada -, respondeu à indagação da garota com muita maestria: “Meu cabelo é assim, pois não sou uma princesa como você”. Se a pequena menina já fosse adulta, eu teria considerado a resposta da professora um tanto quanto irônica. Porém, por se tratar de uma garotinha de apenas cinco anos, creio que a réplica foi genial – já que ela questionou os padrões de beleza impostos sem condenar a garota, que não tinha culpa alguma de pensar daquela maneira.
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Ficou mais que claro, portanto, que a culpa do preconceito, obviamente, não era da criança. A ideia de que só quem tem cabelo liso é bonito já está arraigada na mente da maioria dos pequeninos (se não de todos). A luta para que a diversidade – de aparência ou comportamental – seja aceita como algo positivo é incessante. O grande problema, no entanto, é que a segregação – por já estar enraizada em nosso cérebro – acaba tomando a liderança, tornando  alguns momentos de nosso cotidiano perturbadoramente desagradáveis – especialmente quando se trata de cenas constrangedoras envolvendo crianças. Mas o fato é: esses pequenos seres são sinceros. Eles não têm medo de falarem o que querem, afinal de contas, não sabem qual é o tipo de comportamento certo para cada situação específica. (ou seria o comportamento exigido?)

Repreender a menina certamente foi a atitude mais plausível que aquele pai encontrou. Contudo, quanto mais se reprime a criança, mais se constrói um adulto problemático. A liberdade desses pequeninos é tão louvável que dá inveja a qualquer adulto reprimido (ou seja: a todos os adultos). Por mais que a liberdade caminhe juntamente ao crescimento das pessoas, ainda há repreensões da sociedade – que são feitas inconscientemente. E, de tanto sermos reprimidos, acabamos reprimindo também – às vezes até em maior quantidade. De quem é a culpa, portanto, de toda essa repressão em massa? Bom, essa resposta é extremamente profunda e demanda muito embasamento histórico, bem como suportes psicológicos e filosóficos. Não entrarei nesse mérito por hoje.
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A sinceridade das crianças é, quase sempre, vista como algo um tanto quanto vergonhoso, porém divertido. Consternados, pais vivem dando risadinhas falsas na tentativa de amenizarem os comentários feitos por seus descendentes.  Na maioria das vezes, os casos de embaraço são isolados e acabam sendo esquecidos após alguns minutos. No entanto, certos momentos de sinceridade excessiva infantil acabam dando “pano para a manga” – como aconteceu com o comentário feito pela pequena menina loira no shopping. Ser sincero, em um mundo como o de hoje, é praticamente impossível quando se é adulto. Nem mesmo os que se dizem totalmente verdadeiros o são. Somos compelidos a emitirmos “mentirinhas sociais” todo o tempo e, se não as damos, somos taxados de insensíveis e até mesmo problemáticos.

Mentir é da natureza humana? Não sei. Creio que a mentira tenha nascido das tamanhas imposições feitas a todos nós, desde que o mundo é mundo. A sinceridade, sim, é algo inerente ao ser humano, mas que, com o passar do tempo, torna-se cada vez mais remota na maioria dos lares e centros de convívio social. A verdade, tão almejada pelos seres humanos, acaba sendo relegada ou até mesmo apagada do dia a dia. No lugar dela, uma grande onda de mentira maquiada de sinceridade aparece. Sinceridade demais dói e, por isso, não é totalmente aceita pela sociedade – por mais que neguemos isso.

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“Amiga, tô bonita?” “Tá linda, amor!”. Baleia, horrorosa. Prostituta. Olha essa roupa! Aonde ela pensa que vai com esse vestido mega decotado? Se ela acha que vai pegar o meu bofe, pode ir tirando o cavalinho da chuva. O macho é meu! “Eu te amo” Só quero te comer, mas, para te comer com todo esse seu falso moralismo, terei de fingir que estou apaixonado e, de quebra, ainda sacrificarei minha solteirice em prol de um namoro falso, com fins puramente sexuais.

Obviamente, nem todas as relações interpessoais são assim. Porém, é preciso exagerar um pouco para se entender – a fundo – a complexidade do mundo em que vivemos: maquiagem, maquiagem e mais maquiagem é necessária para se conseguir conviver em sociedade. Que o homem é um animal social, todos nós sabemos (inclusive, já comentei sobre isso aqui várias vezes). No entanto, o indivíduo possui um limite de verdade que consegue suportar e, caso comece a ser totalmente verdadeiro, será rechaçado pelos “amigos” e acabará se afastando deles para não entrar em depressão – ou será abandonado sem mesmo pedir por isso.

Gostamos mesmo é de receber elogios. Por mais que não assumamos esse nosso comportamento um tanto quanto autoenganador (e narcisista), a realidade é que só funcionamos bem à base de comentários agradáveis a respeito de nossas condutas. Críticas – em uma quantidade limitada – são sempre (ou quase sempre) bem vindas. No entanto, quando se começa a hostilizar uma relação em demasia – sempre em prol da sinceridade pura – tudo desanda. Não há como permanecer ao lado de uma pessoa que só vê seus defeitos. Por mais que você não se sinta o rei do mundo, sabe que tem qualidades a serem ressaltadas. Se elas não são mencionadas por quem amamos, por que ficarmos ao lado dessas pessoas? Procuremos, portanto, um novo grupo social, no qual a aceitação deverá ser o primeiro passo para nos incluirmos verdadeiramente naquele lugar.
Isso acontece com pessoas que possuem gostos em comum, como gastronomia, gêneros musicais, séries, filmes, livros e até mesmo religião. A religião veio como uma grande possibilidade de expandir as relações sociais, devido ao seu caráter unificador. Quem pensa igual, permanece junto - ao menos, era assim que deveria funcionar. Mas o fato é: nem sempre é assim que as relações surgem.

Iniciamos relacionamentos – amigáveis ou amorosos – sem nem ao menos conhecermos a pessoa por completo. (Divagação: o fato é que nunca conseguiremos conhecer alguém verdadeiramente, em toda a sua totalidade). Na tentativa de acertarmos nas nossas escolhas, procuramos indivíduos que nos agradem de alguma maneira, seja ela visual, intelectual ou carnal. Se algum desses pontos falha, não desistimos (a maioria, pelo menos). Batalhamos para a relação continuar firme e forte, pois, dependendo da altura do campeonato, não há mais como fugir dos sentimentos: eles já foram instalados. Sendo assim, a busca incessante por pontos positivos está sempre ativa.

Há quem diga que, com o passar do tempo, existe cada vez mais intimidade. A intimidade constrói manifestações puramente sinceras. É fácil estar à vontade com quem se ama: não precisamos nos arrumar, muito menos manter a pose. Podemos comer com as mãos e arrotar sem maiores constrangimentos. No entanto, é com o passar do tempo que algumas verdades vão se tornando insuportáveis, a ponto de começarmos a refletir se vale realmente a pena continuarmos a sermos sinceros. Quem sempre prega a verdade acima de tudo às vezes acaba sucumbindo à mentira social, na tentativa de manter os relacionamentos em pé.

Mentir é ou não é saudável? Do ponto de vista psicológico, penso eu, não. Mentiras levam a um peso na consciência que, muitas das vezes, pode ser insustentável. No entanto, quando se trata de preservar uma relação com quem se ama, mentiras podem ser bem vindas. Não me levem a mal: não incito a mentira. Mas mentir pode ser a única solução, ao menos momentânea, para se passar por uma crise sem dores indeléveis. Discussões e brigas sempre existirão. Não há como fugir dos devaneios da mente, muito menos das vaidades que surgem em momentos totalmente inoportunos. Passar por cima desses desgastes é que deve ser um ponto a ser considerado: vale ou não a pena?

Para quem diz que não vale, a única opção possível é o afastamento. Nem sempre é assim tão fácil se afastar de alguém (ou de algum grupo) com o qual se criou laços fortes e extremamente afetuosos. Quando essas relações estão no início, acaba sendo mais fácil se afastar. No entanto, quando já estão mais avançadas, demanda-se um pouco mais de reflexão, sobretudo no âmbito do racional, pois, caso contrário, o indivíduo nunca tomará a decisão certa – se é que existe apenas uma decisão certa. Largar ou não largar?  Abandonar ou não abandonar? Ficar ou não ficar?

A questão da permanência com uma pessoa – ou várias – não é tão simples quanto parece. Se a escolha é – como já disse acima – desistir, ótimo (mesmo que não seja tão ótimo assim!). Mas, se a escolha é permanecer, como lidar com todos os impasses e empecilhos que foram surgindo ao longo do tempo? O ser humano é único e, por isso, possui opiniões divergentes acerca de todos os assuntos. Se os ideais se batem demais, o desgaste é inevitável. E, com o desgaste, vem a tristeza. E, com a tristeza, vem a auto anulação.

Anular-se não é uma questão de escolha. Anular-se é, muitas das vezes, algo que acontece inerentemente. Ao querermos o bem do outro, deixamos o nosso bem de lado. Isso é auto anulação. Há quem defenda que esse tipo de comportamento é louvável e cristão. Eu, no entanto, prefiro acreditar que essa atitude é um ato suicida. Se nos anulamos, tornamo-nos infelizes. E, se estamos infelizes, acabamos passando toda essa tristeza a todos que estão ao nosso redor.

Se mentimos – sobretudo para nós mesmos -, permanecemos escravos da nossa mente, que, muitas das vezes, acaba se esgotando de tanto pensar em histórias mirabolantes. Cabe a nós, portanto, escolhermos: mentir e fazer o bem para os outros ou ser sincero e cultivar isolamento. Creio que podemos mesclar essas duas possibilidades, sejam elas em apenas uma relação, sejam elas em várias relações diferentes. Não necessariamente precisamos nos escravizar com a mentira, mas isso não significa, portanto, que precisemos nos martirizar com a exclusão social oriunda da sinceridade plena. Mentir tem, sim, suas vantagens, bem como ser sincero, também.

Entre falácias e fatos, a vida continua. A mescla desse arquétipo pode fortalecer ou matar. Se o consciente mentiroso da maturidade fala, é necessário ouvir. Mas, se a mente pueril grita, é crucial libertar. Caso contrário, a vida se transforma em morte. Morte lenta, degradante e sem volta. Se, aos quarenta em cinco do segundo tempo, o arquétipo decidir migrar para um determinado lado, que assim seja. A mistura igualitária pode fazer mal, bem como pode fazer um bem danado dependendo da ocasião. Divagar é necessário, mas, agora, devo ir. A responsabilidade me chama. Isso talvez tenha sido uma mentira total. Mas ainda há a esperança de que tudo aqui escrito tenha sido sincero – ao menos em partes. A decisão, nesse caso, não é minha.

Natália Ribeiro


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