quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sobre zelo, posses e amor à vida

Você, por acaso, sabe o que é um Stradivarius? Eu não sabia. Stradivarius é um violino. Não um violino comum, como outro qualquer. Tampouco um violino caro, como alguns mais elaborados que existem por aí. Um Stradivarius é simplesmente o violino mais caro do mundo. O preço? Por volta dos três milhões de dólares. Em reais? Arredondemos para dez milhões.

No Brasil, só há um músico que toca esse tal do Stradivarius. O nome dele é Antônio Menezes, mas o instrumento nem sequer é dele. Ele pegou “emprestado” de um ricão cujo nome não estou lembrada agora e, por incrível que pareça, poderá ficar com o violino até o fim de sua vida – ou até decidir parar de fazer música (coisa que duvido muito que vá acontecer).

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Esse seu Antônio é um artista famosíssimo e toca nos melhores eventos do país. Nas mãos dele, encontra-se simplesmente o instrumento mais caro do mundo e, por isso, presume-se que Menezes tenha uma cautela extraordinária com o violino emprestado. Ao viajar para realizar seus concertos, o artista não despacha o instrumento. Tampouco leva-o na bagagem de mão. Seu Antônio compra uma passagem extra e coloca seu queridíssimo Stradivarius em posição de passageiro.

Exagero para alguns, cautela crucial para outros. Pouco importa o que pensemos do músico Antônio Menezes. Ele sabe a relíquia que tem nas mãos e, portanto, jamais deixará algo de ruim acontecer com ela. Em suma: Antônio cuida bem daquilo que ele considera precioso. Afinal de contas, embora o Stradivarius seja “apenas” um bem material, é a fonte de renda do músico. Além disso, presumo que seu Menezes tenha uma certa paixão pelo instrumento, bem como por sua profissão. Os aristas, no geral, costumam ser bem apaixonados pelo que fazem.

E do que nós estamos cuidando bem? De nós mesmos? Dos outros? Dos nossos bens materiais? Pouco importa. Ou melhor, importa para nós mesmos – e mais ninguém. Mesmo que cuidemos de uma outra pessoa, essa pessoa nunca saberá – ao certo (com todas as letras do alfabeto) – como é estar dentro de nós e, por isso, nunca reconhecerá todo o nosso esforço. E então? Devemos deixar de cuidar dessas pessoas? A resposta, creio eu que todos já sabemos...

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O zelo é algo inerente ao ser humano. Quando temos apreço por algo, temos o instinto – total e puramente inato – de querer proteger essa coisa. Para muitos, espíritos evoluídos são aqueles cujos alvos do empenho são pessoas, e não objetos. O que ocorre, no entanto, é que, muitas das vezes, as pessoas que amamos vão embora deste mundo, e o que fica é o material. Devemos desprezar esses pedaços de matéria? A resposta (repito!), creio eu que todos já sabemos...

Quando um objeto está atrelado a um sentimento muito forte, ele se torna parte dessa emoção. Radicalizar e ter total aversão a todo o tipo de matéria é quase que leviano. Se somos feitos de matéria, por que não amar outros fragmentos atômicos também? Afinal de contas, se é que somos apaixonados por nós mesmos, então amamos um pedaço de carne. O equilíbrio entre o espiritual e o mundano deve ser nossa meta. Se a atingiremos ou não, aí já são outros quinhentos... Há muitos que pendem para o puritanismo excessivo, bem como existem os amantes dos objetos – e somente dos objetos (misantropos?).

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Terreno ou celeste, o propósito da vida deve girar em torno do cuidado. Sejamos bondosos com nosso corpo, nosso espírito e nossos objetos. Mas, cuidado: cautela não é sinônimo de ciúme. O ciúme corrói e escraviza. Não sejamos tolos de pensar que o ciúme é algo inerente e que, por isso, deve ser aceito. Sobre esse sentimento abominável, dedicarei outro texto. Por hora, foquemos no principal: zelo pela vida. Cuidar do que é “nosso” - uso as aspas pois nada é, de fato, nosso (não possuímos nada verdadeiramente) – é crucial para vivermos bem. Quando negamos esse empenho, assinamos nosso atestado de óbito. Quem não luta pelo bem da vida já não merece mais viver.


Natália Ribeiro




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