junho 26, 2015

Sobre morte, vida e o que há no meio disso tudo.

Não poderia deixar passar em branco a tragédia ocorrida com o cantor sertanejo Cristiano Araújo. Jovem, com apenas 29 anos, o rapaz se mostrava um talento promissor. Sem o intuito de discutir gêneros e gostos musicais, meu único objetivo neste texto é provocar a reflexão acerca da morte. Afinal de contas, o arquétipo vida e morte é a força motriz de toda a existência humana. Para morrer, basta estar vivo.
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Há quem diga que uma espécie de filme retrospecto surge na mente de alguém na iminência da morte. Se isso é verídico ou não, pouco importa. Ou melhor, talvez até devesse importar, já que morrer é um assunto delicado e que, com certeza, passa pela cabeça de todos. Mas não há como desvendar esse mistério, já que a morte nunca faz visita com hora marcada. Se ela agenda um horário, somente uma força maior fica sabendo: o ser humano é poupado desse complexo cronograma.

Mesmo com a consciência de que morrer é a única certeza da vida, o indivíduo ainda insiste em se chocar com as partidas. Quando a morte leva alguém senil, não há tanta surpresa. Mas, quando ela pega de jeito alguém jovem - que, supostamente, teria toda uma bela trajetória pela frente -, a revolta é massificadora. A melancolia só é apaziguada por um sentimento coletivo: a tristeza vem para todos os que ficam, independentemente da idade do falecido.

Há quem alegue não ter medo da morte. De fato, o falecimento em si não dá motivos para grandes alvoroços. O grande problema está em algumas modalidades de se bater as botas: afogado, queimado, esquartejado… A transição da existência terrena para outros mundos é que deve ser cruel. Morrer dormindo é o desejo da maioria, mas, infelizmente, a dona morte não dá ao homem a possibilidade de escolha. O medo de morrer talvez venha, portanto, do temor do incerto.

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Para alguns, a morte é liberdade. O tão sonhado desprendimento do corpo material é, muitas das vezes, a única solução para os problemas terrestres. Mas, seria o ser humano dotado de poder para tirar a própria vida? Afinal de contas, talvez o indivíduo nem seja mesmo o dono da sua própria existência, uma vez que não teve nem mesmo a escolha de nascer. O homem vem ao mundo sem pedir e, na maioria das vezes, vai embora sem querer.

A ideia de que o caminho na terra é só a ponta do iceberg conforta alguns corações desesperados. O saudosismo chega a sufocar quando há muito amor envolvido. Perder alguém querido é como ter liquidada uma parte de si mesmo: o vazio, algumas vezes, é tão grande que assusta, a ponto de enlouquecer mentes sãs. Uma artéria entupida, um câncer no esôfago, uma infecção generalizada. A morte usa meios comuns para capturar os seres humanos.  De vez em quando, ela tem surtos criativos: uma placa que cai sobre a cabeça, um dedo perfurado, a picada de uma abelha…

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Sem mais delongas, desejo que haja, no mundo, mais reflexão acerca desse tema tão complexo - e bonito. Sim, a morte é bela. Afinal de contas, o que seria da vida sem a morte? Que valor teria a existência humana na terra se ela fosse infinita? A graça de tudo está na efemeridade. A noção de escapismo da vitalidade é essencial para motivar as ações do indivíduo. Quão cego fica o homem quando tenta não pensar na morte… A única maneira de entender verdadeiramente a vida é pensando na morte. Sei que, um dia, partirei desta para uma melhor e, por isso, vivo. Vivo bem, vivo feliz.

Natália Ribeiro



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