sexta-feira, 3 de julho de 2015

Sobre manhãs raivosas, operadoras de celular e finais imprevistos.

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Seis da manhã. Despertador toca. Não acredito! Mas já? Eu só dormi cinco minutos, tenho certeza. Viro para o outro lado, cubro-me até o pescoço e espero. Novamente, o bipe intermitente, desagradável como só ele pode ser. Não costumo ser uma reclamadora de segundas-feiras. Na realidade, não costumo ser uma reclamadora. Meu lema é: pensamento positivo atrai coisas boas. Desativo o alarme e, com toda a força do universo, consigo me arrastar até o banheiro para passar uma água (gelada pra caralho!) no rosto. Urino, escovo os dentes e vou tomar meu delicioso café da manhã. Reforçado, saboroso e energético. Ah, como é bom acordar com o pé direito! Nem mesmo o sono me tira o bom humor. Visto uma roupa qualquer e arrumo meus materiais da faculdade dentro da bolsa. Notebook, caderno, livros do francês, chave do carro, documento, carteira, creme, álcool em gel, garrafa d’água... a lista é grande, mas, o costume é ainda maior e, por isso, eu raramente esqueço de algo.

Resolvo ligar o celular para verificar se a minha internet já havia voltado a funcionar.  Não havia. Maldita. Inescrupulosa. Operadora de merda: fez-me passar um final de semana inteiro (em outra cidade, ainda por cima!) sem rede. Minha paciência só foi tão longe devido à esperança de que, quando voltasse para Brasília, tudo se resolveria. Seria apenas um problema de roaming de dados. Não era. Reinicio o celular. Modo avião. Desativo o 3G. Reativo-o. Clico em todas as configurações possíveis e imagináveis para resolver meu problema a tempo de não chegar atrasada na faculdade. Meus planos matinais: estudar francês, escrever, terminar meu resumo estendido e construir minha planilha quantitativa. Cinco minutos já jogados fora. O trânsito já deve estar pegando de jeito. Engarrafamento pra que, né? Vamos que vamos: sou brasileira e não desisto nunca. Ligo para um dos números da minha operadora. Agora vai! Não foi. Protocolo de atendimento número 2015361790365.

Respiro fundo. Faço outra ligação. Desta vez, para um outro número. Protocolo de atendimento 2015361848330. Reinicio o celular. Modo avião. Configurações à mil. Ligo o notebook. Entro no site da operadora. Escolho um plano qualquer que parece me servir bem. Baixo o aplicativo da operadora no celular. Faço o requerimento de uma senha. Aguardo pela senha. Pego a senha. Digito a senha no aplicativo, juntamente com o login (que é meu próprio número). Ativo o novo plano. Esse sim vai atender as minhas necessidades: são diversos minutos e internet rápida e promoções incríveis e saldos extras e purpurinas no jardim e barras de ouro para iphone e adam Levine de brinde. Não me dou ao trabalho nem mesmo de olhar quanto aquilo me custará. No momento, a única coisa que desejo na vida é acessar meu whatsapp sem a necessidade de um wi-fi. Um, dois, três minutos. Nada. Desligo o celular. Ligo-o de novo. Modo avião. Configurações. 3G, 4G, 2G, 7G, CARALHOG. Meu pai acorda. Liga para uma atendente. Passa o telefone para mim. Explico a situação calmamente para a moça. Peço, cordialmente, que resolva meu problema. Procuro usar palavras claras e sutis. Ela me promete uma mensagem automática (com uma senha), que resolverá tudo. Basta aguardar cinco minutos.

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Desligo o telefone – contra a minha vontade: queria mesmo era aguardar na linha. Cinco minutos. Dez minutos. O dobro do tempo não, né? Ligo novamente para o número que meu pai havia discado. Outro atendente é quem está na linha. Explico, novamente, com toda a doçura do universo, minha situação. Desta vez, porém, peço para ficar na linha até a resolução do problema. Só um instante. Música de call-center. Só mais um instante. Música de call-center. O seu CPF começa com 037? Sim. Só um instante. Música de call-center. O final do seu telefone é 2829? Isso mesmo, moço. Só um instante. Música de call-center. Qual o seu nome completo? Natália – sem H – Ribeiro Cordeiro. Só um instante, senhora. Música de call-center. O seu DDD é 61? Sim. Só mais um instante, senhora. Música de call-center. Dez, quinze, vinte minutos. Com o computador ligado, exercito a paciência que havia abandonado em algum lugar do passado. Ouvi dizer que música clássica ajuda na inteligência. Algo relacionado a sinapses neuronais. Estudos de alguma dessas universidades parecidas com Harvard. Resolvo baixar Mozart. Vivaldi. Chopin. Emociono-me com as melodias. São realmente belas. Ao som de Lacrimosa, aguardo na linha por uma eternidade. O pensamento positivo já não está mais fazendo efeito. O estresse bateu na porta. E entrou.
Chamo, em vão, o atendente. Mas a música de call-center me impede de estabelecer um contato direto com ele. Desligo o telefone e ligo, mais uma vez, para o mesmo número – na esperança de falar com o mesmo moço. O sangue, quente.  Bom dia, em que posso ajudar? Não era o mesmo rapaz. É o seguinte, moça: eu só quero a porra da minha internet funcionando, tá entendendo?  Não me importo com o plano, nem com o preço: apenas faça a porra do meu whatsapp funcionar sem wi-fi. Só um minuto, senhora: estou vendo aqui que você está no plano XYZ, que te permite fazer ligações para a galáxia do Frozen, com XYZ megas para gastar como quiser. Whatsapp ilimitado, minutos extras e estrelinhas do sucesso, juntamente com um vale para a França, com direito a café da manhã e jantar. É isso mesmo? Sim, senhora. Esse é o plano. O que eu faço agora? Aguarde na linha, minha senhora. Estarei te enviando uma senha, que, automaticamente, fará com que você resolva sua situação. O protocolo de atendimento é o 2015361850376. Mais alguma coisa? Sim, moça: vai tomar no cu.
10h56 da manhã. Estou sentada em uma lanchonete da faculdade. A saga continuou, mas, felizmente, tive maturidade e autocontrole suficientes para não escrevê-la na íntegra. Foram tantos xingamentos nesse curto período de tempo que seria, no mínimo, desrespeitoso com o leitor partilhá-los aqui. Estou refém do wi-fi (que mal pega). Perdi metade da manhã enraivecida com pessoas cujos rostos me são desconhecidos. Gastei voz à toa: o problema ainda não foi resolvido. No caminho para a universidade, vim escutando música clássica, celta e meditativa. A cólera passou. A inquietude, não. Este texto provavelmente será publicado em uma sexta-feira. Espero já ter recuperado meu pacote de dados até lá.
No mais, tudo bem. A vida continua: estudos adiados, paciência encurtada, e um sol que saiu no céu, amenizando um pouco o vento gelado que anda batendo na pele das pessoas. Observo a sombra da grande árvore que cobre as mesas do restaurante. Ao meu lado direito, uma teia de aranha na placa do Instituto de Ciências Centrais. Ao esquerdo, um trio de rapazes discutindo sobre séries  - game of thrones, friends. A segunda-feira alegre e regrada que eu tanto almejava – após uma belíssima viagem de final de semana para Curitiba -, não começou como planejei. Se fosse há tempos atrás, a desolação teria tomado conta de mim. Hoje, no entanto, tiro proveito de tudo: nada como contemplar os arredores, desviar a atenção do normal e descobrir que, de fato, tudo perece.

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O início da semana, que tinha tudo para ser comum e monótono, coloriu-se. A irritação me rendeu um bom aquecimento, talvez até mesmo mais efetivo que meu moletom. A dose extra de testosterona me fez despertar, tomando o lugar da minha xícara quente de café forte – lotado de cafeína. O tempo de espera na linha, nas milhares de ligações feitas, exercitaram minha paciência, bem como me permitiram entrar em contato com novas melodias (não as de call-center, for christ sake!) que, definitivamente, levarei para a playlist da vida - música clássica é, de fato, sensacional. Quando as coisas não saem como planejado, agradeça. Nada mais improdutivo que repetir as mesmas ações todos os dias. Há quem reclame, incessantemente, de dias tediosos. A monotonia, no entanto, só está presente no cotidiano porque ainda não foi expulsa. Existem inúmeras maneiras de afastá-la da existência: viagens, passeios, busca de novas texturas, sabores e sensações. A falta de dinheiro não pode ser uma desculpa, afinal de contas, até mesmo dos pepinos diários é possível construir uma boa história.

Natália Ribeiro




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