julho 24, 2015

Sobre uma terça-feira diferente

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Na última terça-feira, fiz diferente: em vez de aproveitar minha manhã livre para dormir um pouco mais, acordei cedo. Às sete horas, já estava de pé. Tenho tentado, o máximo que posso, inserir elementos novos no cotidiano: um passeio, um tecido, um quitute. Terça foi, então, um dia no qual eu estava inspirada. Logo no café da manhã, já troquei o requeijão pela manteiga. Há quantos anos eu não saboreava um bom pão com manteiga, coberto com queijo minas padrão e orégano. A sensação foi incrível. Para arrematar, sonho recheado de doce de leite. Uma explosão de prazer paradoxal, que mistura o sabor antigo da infância com a vontade do novo.

Preenchi meu Wreck This Journal - uma espécie de pequeno diário no qual são permitidas colagens e outras melecas mais - com números da vida: passagens e tickets de peças teatrais. Fiz uma pequena lista, no celular, de lugares que eu gostaria de ir. Anotei o endereço de todos eles, coloquei uma roupa confortável, passei um pouco de maquiagem (bem menos do que passo nos outros dias) e fui. Fui rumo a uma das melhores manhãs da minha vida. Embora tenha sido simples, tirei ótimos proveitos dela. De início, já mudei a via: em vez de pegar a estrutural (caminho de cada dia), conduzi meu carro pela EPTG. Troquei a correria por um caminho lento e prazeroso.

Tenho o costume de parar nos sinais e tirar fotos dos transeuntes na rua. Sou bem detalhista e gosto muito de observar as pequenas belezas da vida. Se há uma folha caída no chão, já tento pegar um ângulo diferenciado para eternizá-la por meio de uma fotografia. No referido dia, não somente eternizei os pedestres, mas, também, alguns lugares turísticos de Brasília. Na minha humilde opinião, o Santuário Dom Bosco, localizado no início da Asa Sul, é uma das igrejas mais bonitas do mundo. Na primeira vez que visitei o ponto turístico, já soube que meu casamento haveria de acontecer lá. Na terça, portanto, a primeira parada não poderia ter sido em outro local. Além das fotos, passei um bom tempo olhando as lembrancinhas religiosas no subsolo da igreja, bem como notei, de longe, o semblante alegre e perplexo dos turistas asiáticos que também lá estavam. Eu deveria mesmo era ter ido falar com algum deles. Conversas com desconhecidos sempre rendem boas histórias.

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A parada seguinte se deu no Museu da Caixa Cultural. Eu sempre protelava minha ida até lá, primeiramente devido à falta de tempo e, em segundo lugar, por motivos de escassez de vagas nos estacionamentos ao redor dele. Tomei, finalmente, vergonha na cara e fui dar uma olhadela nas exposições em cartaz. Uma era do artista Joan Miró. Pintor, escultor e gravurista nascido em Barcelona no século XIX, possui um traço bem lúdico - a meu ver, pelo menos. As obras expostas eram abstratas e tinham um quê de puerilidade, beirando o fauvismo ou, talvez, o dadaísmo. A segunda galeria foi a melhor: quantas emoções senti ao entrar naquelas duas salas compridas e claras. As obras eram de um artista cearense, chamado Darcílio Lima, que possuía influências do fantástico. Um dos representantes do surrealismo no Brasil, o desenhista tinha um traço extremamente arrebatador. Os desenhos da exposição tinham sempre a presença de uma mulher, de uma serpente (símbolo da cidade de Cascavel) e de muita loucura. Erotismo, metafísica e um quê de fertilidade me vieram à mente. Algumas mulheres eram livres, já outras, assediadas pelas serpentes. Não há como explicar: é necessário visitar a exposição para sentir a inquietude.
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Acostumar-se a fazer tudo da mesma maneira, todos os dias, é a lei da vida. Mas não deveria ser. Tratar o ordinário como algo importante deveria ser regra. Já não me imagino mais sem sorrir para o nada, sem contar uma piada para alguém triste, sem realmente me importar com o “tudo bem” dos outros. Já não me imagino mais sem observar as flores do caminho, os diversos rostos e feições do cotidiano, os desenhos que as sombras das árvores fazem no chão. Já não me imagino mais sem dar o devido valor a um copo d’água gelado, a um “bom dia” do funcionário da limpeza da faculdade, ao amor dos meus pais. Já não me imagino mais reclamando do tédio, assistindo a um filme sem um olhar crítico, engolindo a comida sem saboreá-la verdadeiramente. Já não me imagino mais julgando os outros pelas roupas, rejeitando uma viagem, deixando de adquirir um livro para comprar um brinco. Reinvento-me todos os dias. Para o mundo, isso é inconstância. Para mim, felicidade.

Para mais fotos do passeio: laissezmoicrier.wordpress.com (meu blog, que eu jamais divulguei, mas resolvi apresentá-lo agora)

Natália Ribeiro


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