domingo, 30 de agosto de 2015

Sobre consumo exacerbado, indústria escravista e consciência sustentável.

Forever 21, H&M, TopShop, Zara, C&A. São as chamadas Fast Fashion. Empresas grandiosíssimas de roupas que produzem em larga escala. A cada semana, diversos lançamentos. Se temos apenas 4 estações no ano, essas lojas fazem questão de “inventar” uma nova estação a cada 7 dias, na tentativa de justificar a produção descontrolada. As araras lotadas de pedaços de pano luxuosos, modernos e, claro, baratos. Muito baratos. Se estudo, moradia e alimentação estão cada vez mais caros, pelo menos há o consolo de encontrar roupas acessíveis. Enquanto “perdemos” dinheiro todos os dias, a indústria do consumo exacerbado nos dá a impressão de que podemos achar consolo na compra barata. Longe de fazer apologia aos produtos caríssimos, estou aqui apenas para trazer uma reflexão à tona: será que precisamos, realmente, de tudo aquilo que consumimos?

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Aos 15 anos, fiz minha primeira viagem para os EUA. New York, Disney: o sonho de qualquer adolescente comum. Compras, compras e mais compras. Consumo, consumo e mais consumo. A vida parecia ser tão boa! Os anúncios das lojas faziam meus olhos brilharem. Como não ser feliz na terra do Tio Sam? Como não ser feliz com lindas blusinhas de apenas 5 dólares? Como não ser feliz com vestidos de festa a 20 dólares? Quem não compra, não é feliz: esse era o meu pensamento. E, como se não bastassem só os preços bons, resolvi investir nas marcas mais caras, afinal de contas, sem os impostos abusivos do Brasil, tudo ficava mais bonito. Ao voltar para casa, percebi que metade do que eu havia comprado era perecível (roupa descartável mesmo!), enquanto a outra metade não me fez mais feliz. Eu continuava com os mesmos problemas, o mesmo vazio interior e a mesma sede por algo a mais. A viagem valeu muito a pena: realizei meu sonho e aprendi muito. Sou eternamente grata aos meus pais por terem me proporcionado esses dias tão maravilhosos. Hoje em dia, no entanto, teria gastado meu dinheiro (lá nos EUA mesmo) com outras coisas. Foi bom para aprender, no entanto. Consumi muito e parei. A consciência sustentável demorou, mas chegou.

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Não sei se o que me fez abrir os olhos para as atrocidades ocorridas no mundo foi a universidade, a idade ou o próprio mundo - que, aos poucos, torna-se mais consciente. Seja quem for que tenha sido, o que importa é que eu passei de uma tentativa frustrada de patricinha a uma menina feliz. Ao meu redor, vejo diversas garotas tentando ser quem não são, tentando impressionar os outros garotos a troco de uma pegação, tentando construir uma imagem totalmente plastificada. Nas fotos, parecem alegres e completas. Cheias de vida, de amor e sucesso. Muita bebida, muitos biquinhos, muitos biquinis. Muito brilho, muito luxo, muitas “amizades”. Se esse é seu jeito de se divertir, não se importe com os outros: vá fundo e continue no mesmo caminho. No entanto, se você sente que não pertence ao mundo consumista, não hesite em sair dele. Largue a máscara que está vestindo e mostre quem você é de verdade. Todos nós temos algo a acrescentar para o mundo, cada um a sua maneira. Não é estranho olhar para o lado e ver todos iguais? Será que não há algo de errado com a sociedade? Será que todo mundo gosta mesmo de ir a baladas e ficar se embebedando para, no dia seguinte, não se lembrar de nada? Se sim, ótimo. Mas, se não, por que então continuamos seguindo o rebanho? Como boa geminiana, migro da noite para o dia, do frio para o quente e do rock para o MPB. Gosto de conhecer todos os lados da moeda, bem como de tentar entender as relações complexas do planeta. No entanto, quando o assunto é me posicionar, não tenho medo de assumir riscos. Digo minha opinião, doa a quem doer. Se meu pensamento vai de encontro ao da maioria, não me importo. Há quem me censure por isso, dizendo que eu não deveria ser tão “rude” em um meio tão preconceituoso. No entanto, não posso me calar frente a tanta maldade existente no mundo, bem como a tantas diferenças sociais.

Comprar é bom. Comprar é importante. Mas devemos ter noção dos limites do consumo, afinal de contas, é no excesso que está o grito de desespero das crianças do Camboja. É no excesso que está o choro de uma mãe indiana, que ganha 2 dólares por dia para produzir milhares de blusinhas que serão comercializadas na maioria das Fast Fashion. Será mesmo que eu preciso de mais uma calça? Será mesmo que eu preciso de mais uma câmera fotográfica? Será mesmo que eu preciso jogar fora aquele moletom que não me agrada mais? Serei feliz ao comprar mais um vestido caríssimo de marca? Serei alguém mais importante por ter um Louboutin? Terei mais amigos se tiver uma BMW ou um Audi? Mimar a nós mesmos faz bem para o ego. Trabalhamos para conseguirmos comprar aquilo que queremos. Mas será mesmo que aquilo que queremos é o que nos trará a verdadeira felicidade? Ou será que a compra mais recente não se tornará, em breve, apenas mais uma? O vazio interior será preenchido com algo que o dinheiro pode comprar? Ou, após todo o sacrifício de ter economizado tanto, sobrará somente a dúvida?

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É fácil falar ou escrever sobre a ruptura com a sociedade de consumo. Difícil, no entanto, é conseguir verdadeiramente sair do lugar. A cada passo que damos contrário ao da maioria, uma força maior parece nos puxar para voltarmos ao lugar de origem. A cada tentativa de não comprar, milhares de anúncios enchem as páginas da internet e as telas da televisão. A cada posicionamento diferente, um rebanho se prepara para nos atacar. Os trabalhadores que vivem em condições subalternas merecem ser tratados como seres humanos. Chega de coisificar as pessoas! Eles merecem, sim, ter emprego: mas empregos dignos. Escravidão disfarçada de trabalho assalariado não está com nada. Pense bem antes de comprar algo muito barato: além de, muito provavelmente, você não precisar daquilo para viver, ainda há a possibilidade de o produto ter sido feito com o sangue de alguém. Sim, com o sangue de trabalhadores que morrem todos os dias devido às más condições de trabalho as quais eles são submetidos. Quer comprar, compre. Mas compre conscientemente. Mais vale ter uma única peça de roupa que foi produzida adequadamente a ter várias que foram feitas por verdadeiros escravos. E fique atento: a indústria escravista da moda não está presente só nas Fast Fashion. Pesquise antes: a internet é aliada. Bastam alguns segundinhos de google antes de consumir.


Natália Ribeiro


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