novembro 27, 2015

Sobre tragédias, amor e padrões

Exibindo paris1.jpg
Exibindo paris1.jpg
Exibindo paris1.jpg

O negócio é o seguinte: pra que brigar pelo pódio de maior tragédia? Minas precisa de nós, assim como a França. Assim como todo o continente africano. Ou melhor, o mundo todo precisa de nós. Nós somos o mundo. É triste saber que tem gente com ciúme porque a tragédia local não foi tão noticiada tanto quanto a estrangeira.

Primeiro de tudo, tragédias nem deveriam acontecer, mas, se acontecem, é porque ainda não vivemos nas condições ideais. É certo que a mídia manipula todo o conteúdo que cai na boca do povo - já fiz um texto sobre isso há algum tempo -, mas isso não dá o direito ao ser humano de querer excluir a tragédia alheia. Todas as tragédias nos afetam: umas mais, outras menos. O choque é mais forte quando o homem tem alguma história no local atingido - ou com a(s) pessoa(s) feridas ou mortas.


Eu, por exemplo, nasci em Minas Gerais e, de fato, fiquei tocada com a precariedade da região. No entanto, não posso ser hipócrita e dizer que, só porque sou brasileira e de minas, Mariana me tocou mais do que a França. Afinal de contas, meu carinho pela França começou há algum tempo e, desde que eu decidi estudar francês e fazer intercâmbio, já me sentia um tanto quanto francesa. A cultura do país em que vivo atualmente é incrível (e a do Brasil também, assim como a de todos os lugares do mundo!) e talvez seja por isso que sou tão apaixonada por tudo que remete à França. Quando os atentados ocorreram, não pude deixar de me chocar, até mesmo porque o medo tomou conta de mim. Estou em um país no qual nunca havia estado antes e, agora, todos que nele habitam correm perigo. Tenho colegas aqui que perderam amigos próximos. Melhores amigos. Quando você vê a dor do outro de perto, não há como negar que o susto é maior.

Desde que cheguei aqui, via constantemente, em Lyon - segunda maior cidade da França, perdendo apenas para Paris -, alguns "bandidos" sendo revistados pela polícia. Achava aquilo meio esquisito, mas nunca havia desconfiado que eles eram, na realidade, suspeitos de atuarem no estado islâmico. Após pesquisar um pouco, descobri coisas terríveis sobre a França e alguns outros países da Europa. Os atentados ocorrem com muito mais frequência do que são noticiados. Todos os dias. Moro em Grenoble, capital do Isère. Descobri, esses dias, que essa região possui o maior número de membros do estado islâmico na França. Como não ser atingida por isso? Como não ser atingida sabendo que, pertinho de casa, dois homens, em nome do estado islâmico, decapitaram um rapaz? Antes de julgar, conheça as razões. Sobre esse assunto, é só. No entanto, há mais um outro ponto agora…

Na semana passada, recebi no WhatsApp algumas fotos do Instagram  de uma menina de Brasília. Até aí, nada de demais. O problema é que essa garota, além de ser muito famosa nas redes sociais, possui simplesmente o padrão ideal de beleza da nossa sociedade. Nas fotos, ela mostrava o corpo nu (as fotos eram realmente lindíssimas, pura arte!), mas, obviamente, logo o grupo já começou a discutir. Disseram que ela não poderia postar tais fotos, já que era uma falta de respeito com seus seguidores. Discordo. Quem quer segui-la, que a siga. Quem não quer - pois está incomodado com as publicações -, que pare.


Adoro fotos de nus, especialmente quando são nus com um cunho artístico. Se ela está querendo se promover com isso, pouco importa. Esperta é ela que ganha dinheiro fazendo o que gosta. A outra grande polêmica levantada no grupo, no entanto, foi a de que, se ela fosse considerada feia pela nossa sociedade, suas fotos já teriam sido denunciadas. Isso é verdade. Por que só gente "bonita" pode postar foto pelada? Por que quem está fora dos padrões de beleza impostos por revistas de moda e pelos próprios cidadãos mundanos deve ter vergonha de expor o corpo? A nudez nunca foi tabu. O que sempre foi tabu é a nudez do feio, do gordo, do deficiente físico.

É triste ouvir certos rapazes dizendo que mulher feia deveria gostar de ser estuprada, afinal de contas, essa é a única maneira de elas se sentirem desejadas. É igualmente triste ouvir de alguém que você não deveria ir para a praia de biquíni, pois biquínis só caem bem para quem tem um corpo legal. É triste saber que o nu artístico só vai ser considerado artístico quando for protagonizado por uma pessoa dentro dos padrões de beleza atuais. Eu, particularmente, sou apaixonada por nus. Mas nus de todos os tipos, especialmente os nus de pessoas "normais". Adoro uma foto que mostra barriguinha saliente, que mostra estrias, pelancas, seios caídos, celulite, pelos pubianos, calcinhas beges, desajeito na hora de olhar para a câmera, unhas sem fazer, cabelos desleixados. Admiro todos os tipos de nu.

Já ouvi de muitos garotos, felizmente, que eles preferiam meninas com barriguinha, que não fossem tão musculosas ou tão magras. Isso é bom: sinal de que nossa sociedade está progredindo, mesmo que aos poucos. Vamos continuar assim! Beleza é subjetivo, obviamente, mas, o que não podemos deixar acontecer - de maneira alguma - é proibirem a divulgação de diferentes tipos de padrões. Ou melhor, que mané padrões o que?! Isso já é passado. O futuro é o plural. Viva o futuro!


Natália Ribeiro



E-mail:nribeiro95@hotmail.com
Instagram: nataliaribeiro
 Twitter: natiribeiro9