janeiro 08, 2016

Sobre epifania, ano novo e, claro, felicidade (meu tema favorito!)

3 de janeiro. Dia da epifania do Senhor, para quem é católico. Início do ano. Estamos ainda com o espírito leve, cheio de ideias e planos para o futuro. A sensação de querer mudar bate forte. Lembro-me de ter estudado Clarice Lispector no ensino médio. Havia um texto dela que falava sobre o processo de epifania. Aquilo nunca mais saiu da minha cabeça. Cada momento íntimo que eu tinha comigo mesma, logo lembrava do significado de epifania. A palavra significa aparição, manifestação. Para quem é religioso, epifania é a aparição dos reis magos com os presentes para Jesus Cristo. Para quem não é, a palavra possui um significado mais pleno: sensação profunda de realização e de entendimento das coisas. É como mágica. É como se você entendesse o sentido da vida. Sim, todos nós já tivemos momentos de epifania. É um pensamento iluminado, uma emoção grandiosa que toma conta não só do corpo, mas também da mente, da alma. Hoje, dia 3 de janeiro, tive uma epifania. Não só no sentido religioso, mas, também, no sentido filosófico. Caminhando por Grenoble após uma sessão de cinema, não conseguia achar o caminho da igreja. Ainda não sou totalmente familiarizada com todos os cantos da minha cidade e, por isso, vira e mexe preciso da ajuda do GPS do meu celular. Infelizmente, a bateria do meu grande companheiro localizador acabou. Desesperada, na chuva e no frio, tentei seguir um caminho qualquer, rezando para que encontrasse a igreja. Se não a encontrasse, teria de pegar um tramway (espécie de metrô a céu aberto) e voltar para casa, já que a missa estava quase começando. De uns tempos para cá, eu não estava dando mais tanto valor ao ato de ir a missas, mas, sim, de espiritualizar-me profundamente em minhas viagens. No entanto, por ser o primeiro domingo do ano, resolvi ir à missa. Desnorteada, após alguns segundos de caminhada, comecei a escutar os sinos da igreja tocando. Para quem não acredita em milagres, esse fenômeno é somente uma mera coincidência. Para mim, no entanto, que sempre tento perceber as manifestações divinas em minha vida, isso foi um baita de um sinal. Eu nunca havia escutados os sinos dessa igreja antes. A cada passo que eu dava, no entanto, os sinos ficavam cada vez mais e mais altos. Feliz, percebi que estava me aproximando da igreja. Era como se Deus me chamasse. Era como se eu tivesse que estar naquela missa para escutar algo maior. Quando finalmente consegui visualizar a igreja, uma sensação maravilhosa percorreu todo o meu corpo. Foi a melhor missa da minha vida. Com o espírito renovado, voltei para casa. Assisti a um documentário chamado “Eu maior (higher self)”. O filme, brasileiro - e disponível no youtube for free -, mostra as diferentes percepções e definições da felicidade. Após terminar de vê-lo, inspirei-me para escrever este texto, afinal de contas, nada melhor que ajudar meus leitores a serem felizes como eu. Aproveitem o início do ano para se renovarem. Mudem. Mudem mesmo. Mudem muito. Façam planos e mais planos. 2016 está aí para vocês serem felizes. E, com essas palavras, começo meu primeiro texto do ano - e, com certeza, um dos textos mais sinceros que já escrevi.


Uma das maiores dúvidas do ser humano é saber quem ele realmente é. Uma das outras maiores dúvidas do homem é saber o que há depois da vida. Além disso, temos também a dúvida de saber o porquê de estarmos aqui na Terra. No meio de nossas trajetórias, diversos questionamentos surgem. Quando pensamos que estamos plenamente felizes, logo vem uma queda. Quando pensamos termos realmente encontrado nossos eu interiores, logo surge uma dúvida cruel. Quando pensamos estarmos fazendo tudo certo, logo vem um erro. Nós nunca conseguimos chegar em um estado pleno - conhecido, talvez, como nirvana. Nós nunca conseguimos ter a plena certeza de que todas as nossas ações são as melhores possíveis. Quando traçamos um rumo para nossas vidas, temos recaídas no meio do caminho. Se decidimos parar de beber, por exemplo, uma tentação pode arruinar todo um esforço. Se decidimos fazer mais exercícios físicos, um final de semana sedentário e cheio de comidas gordurosas nos faz sentirmos culpados. Quando decidimos estudar mais, uma temporada de notas baixas e pouco empenho escolar nos faz sentirmos culpados. Mas nenhuma dessas quedas deve nos fazer desistir de seguir o nosso caminho. Quando o ano muda, novas esperanças surgem em nossos corações. Todos fazemos planos, promessas e traçamos objetivos para nossas vidas. Tudo isso deve ser mantido ao longo dos dias, pois, caso contrário, o espírito morre - e só sobra matéria. Cada um é livre para traçar os objetivos que quiser, mas, lembrem-se, por favor, de que felicidade não é sinônimo de bens materiais ou de status. Felicidade vem de dentro. É estranho (mas completamente lógico) como as pessoas buscam a felicidade em coisas da natureza, como o sol, o mar ou as montanhas. Isso nos mostra como o ser humano não precisa de beleza exterior ou de muito dinheiro. Isso nos lembra de que somos muito mais que um corpo. Somos uma mente e um espírito, conectados a um pedaço de carne que está aqui para nos servir.

A prática da yoga, por exemplo, prega a conexão do corpo físico com o corpo espiritual. Mas de nada adianta praticar a yoga só para manter o shape. A yoga pode ser praticada até mesmo sem a movimentação do corpo. Meditar significa entrar em contato com o eu interior. O que há de fora é só uma capa. A ciência, por exemplo, nos ajuda a entender como as coisas funcionam. Ela é extremamente importante para nossas vidas. A arte, a filosofia e a religião, porém, ajudam-nos a entender o porquê das coisas. Elas são, também, extremamente importantes para nossa trajetória terrena. Lidar com a razão demanda uma distância dos sentimentos. Mas essa ruptura com os sentimentos não pode ser total, caso contrário, nós enlouquecemos e explodimos. O ser humano precisa do lado emotivo. O ser humano precisa, acima de tudo, de equilíbrio. Quando eu dou os parabéns a alguém que está fazendo aniversário, sempre desejo-lhe equilíbrio, pois, sem equilíbrio, morremos com os nossos excessos. Nós somos únicos. Ao olharmos para os lados, enxergamo-nos nos outros. No entanto, não somos totalmente igual aos outros. Temos características em comum com certas pessoas, mas jamais podemos nos igualar a elas. O fato de sermos únicos nos mostra que cada um tem a sua própria maneira de ser feliz. Portanto, não há porque achar que, se fulano é feliz de tal maneira, você também vai ser feliz se fizer o que ele faz. Se ciclano fica feliz com um par de Louboutin e uma bolsa da Chanel, ótimo para ele. Mas se você não consegue ser feliz assim, então pare de buscar sua felicidade nisso. O maior segredo para sermos felizes é saber do que gostamos mais. Se conseguirmos nos conhecer plenamente por dentro, saberemos o que buscar para conseguirmos a felicidade.



Enquanto uns são felizes viajando pelo mundo, outros são felizes formando uma família. Enquanto uns são felizes comendo bastante, outros são felizes fazendo jejum. Enquanto uns são felizes solteiros, outros são felizes casados. Muita gente, no entanto, batalha durante uma vida inteira para conseguir alcançar algo e, quando finalmente consegue atingir o objetivo, fica frustrado. Por que isso acontece? Porque essas pessoas não souberam se conhecer internamente e, por isso, buscaram a felicidade em coisas que não as completariam. Não há nada de errado em trabalhar duro para conseguir alcançar um objetivo difícil. O problema é quando esse objetivo não nos faz plenamente felizes. Antes de sair em busca de algo maior, sente, respire fundo e analise seu eu interior. Um pouco de contato consigo mesmo todos os dias é crucial para o aprendizado maior e para o conhecimento de si próprio. Além disso, conversar com os outros é a melhor maneira para perceber que ninguém é igual a ninguém. Quando conversamos com os outros, podemos até achar algumas semelhanças e pensamentos em comum. Mas jamais seremos os mesmos que nossos colegas, que nossos amigos, ou que nossos familiares. Conversar profundamente com alguém é ótimo para aprender sobre si mesmo e sobre os outros. É ótimo para saber que o mundo não é como nós queremos que ele seja. O mundo existe independente de nós, e, cabe a nós mesmos de aproveitá-lo da nossa maneira. Quando aceitamos que o outro não é como nós, praticamos a tolerância. Com tolerância, tudo fica mais leve, mais fácil, mais alegre. A busca de saber quem somos é infinita, mas a graça da vida é justamente continuar buscando. Como eu já disse em textos anteriores, a felicidade é o caminho.

A satisfação definitiva também é algo intrínseco. Quando começamos a analisar o que vai nos fazer felizes a longo prazo, poupamos esforços desnecessários para correr atrás de coisas que só vão nos fazer felizes por um momento. Se você é daqueles que não vê sentido algum na vida, não deixe de se auto conhecer mesmo assim. Dessa maneira, você poderá saber do que gosta e do que não gosta, podendo, assim, escolher o que lhe agradará mais - mesmo que seja só um agrado momentâneo. A alegria efêmera também é gostosa de se viver. Pequenos prazeres valem a pena. Tomar aquele sorvetinho no meio de uma tarde quente pode parecer fútil, mas com certeza lhe dará minutos de prazer inigualáveis. Tirar uma foto, por exemplo, pode eternizar um momento. Mais do que eternizar um momento, tirar uma foto e mostrá-la a outros pode inspirar certas pessoas a seguirem um caminho interessante. Eu, quando viajo, sempre tiro fotos para mostrá-las não só aos que eu amo, mas também a todos os outros, para que, caso possível, eu possa despertar o desejo de expandir os horizontes em alguém. Cada lugarzinho que eu visito tem uma história. Talvez essas histórias, portanto, possam ter um significado ainda maior para outras pessoas. Quando achamos algo legal, por que não compartilhá-lo com os outros? Que graça teria a vida se fizéssemos tudo escondido só para nós mesmos? É claro que o objetivo principal da nossa existência deve ser achar o prazer próprio. Mas nada como uma boa dose de alegria compartilhada. A felicidade só aumenta quando é dividida. Outro ponto importante para nossa trajetória é sabermos que não nascemos prontos. As únicas coisas que nascem prontas são os objetos. Fogões, geladeiras e celulares nascem prontos e vão envelhecendo, até estragarem de vez. Nós, no entanto, nascemos praticamente vazios e vamos nos preenchendo pouco a pouco ao longo da vida. Nós nascemos sem nada e crescemos a cada dia. É por isso que mudar é tão fundamental. Se não mudamos, permanecemos na estaca zero. É como se não evoluíssemos do estado no qual nós nascemos. Mudar faz parte do enriquecimento individual. O ano novo está aí para isso. Ano novo, vida nova. Mudanças, novos planos e novas metas. Não podemos esquecer, no entanto, que somos humanos e, portanto, passivos de erros. Os erros nos acompanharão sempre, mas eles não devem ser a nossa razão para desistirmos de alcançar a alegria plena. Os palhaços de circo, por exemplo, nos mostram que devemos levar os erros com bom humor. Quando um palhaço cai, nossa primeira reação é de rir. E por que não, portanto, não rirmos dos nossos tombos? Somos imperfeitos! Não há porque querer viver uma vida totalmente regrada. Temos a escolha de chorar ou de rir dos nossos erros e quedas. Qual dos dois você prefere? Eu prefiro rir.


Ser feliz pode parecer ser livre, mas, na realidade, a alegria plena é uma espécie de condenação. Condenação? Por que? Porque, quando nos conhecemos interiormente, conseguimos saber exatamente o que nos fará feliz. Sendo assim, só aquilo, em específico, nos dará a alegria plena. Portanto, estamos condenados a seguir um caminho para alcançar essa coisa que nos dará a felicidade. Se seguirmos um outro caminho, seremos triste. Se eu quero muito ser atriz e jornalista, não posso ser engenheira. Estou condenada a ser atriz ou jornalista. Mas essa condenação é prazerosa, é gostosa. Com ela, vem uma liberdade de ser plenamente alegre. Com ela, posso ser livre para ser feliz. Felicidade é um estado de espírito. É estar bem consigo mesmo. É estar no lugar certo, na hora certa. Não se inquiete com as diferentes visões de felicidade no mundo. Cada um tem a sua maneira de se encontrar. Não se afobe em encontrar a sua. Conheça-se interiormente e tudo fluirá. O natural faz parte do processo. Forçar algo não traz nada de bom. A política Marina Silva disse, no documentário “Eu maior (higher self)”, que “A beleza da condição humana é a possibilidade de ser completamente original e completamente igual. É um paradoxo”. Ser feliz demais traz medo. Quando estamos muito felizes, sempre temos medo de perder a felicidade. Não fique com medo. Aproveite o momento mágico. Caso o perca, recupere-o. Você consegue. A dor também purifica. Eu, quando estou com enxaqueca, por exemplo, sinto-me mais em sintonia comigo mesma. A dor às vezes é tão forte que me faz lembrar o quão frágil sou. Sem saúde, não sou nada. São nas minhas crises de enxaqueca que eu tenho um maior contato com Deus. São nas minhas crises de enxaqueca que eu tenho minhas maiores epifanias. São nas minhas crises de enxaqueca que eu coloco muito do meu coração nos meus textos - como coloquei neste, por exemplo. São nas minhas crises de enxaqueca que eu me torno mais altruísta. São nas minhas crises de enxaqueca que eu vejo que meu maior objetivo na vida, além de ser feliz, é de ajudar os outros. Se eu puder inspirar outras pessoas com minhas palavras e com meus conselhos, estarei completa. Quero ser uma boa companhia. No mais, é isso. Um feliz ano novo a todos e lembrem-se: saber demais é bom, mas não podemos saber tudo. Viver com um pouco de dúvida faz parte da existência. O importante é nunca parar de se conhecer e, claro, jamais rejeitar uma mudança para melhor.



Natália Ribeiro



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