segunda-feira, 21 de março de 2016

SOBRE ESGOTAMENTO



Às vezes, eu esgoto a voz à toa. Grito, choro e faço um escarcéu por nada. Sou nervosinha, estouro com qualquer coisa. Viajando com meus pais para Roma, tive uma crise de estresse. Tudo isso porque, certo dia, eles saíram do hotel sem mim e não avisaram nada. Para completar, fiquei presa do lado de fora do quarto. Quando eles voltaram, armei um barraco. Onde já se viu sair sem me chamar? Mas eu respondi com muito drama: escrevi, com letras gigantescas, em várias folhas de papel, uma mensagem irônica para eles. "Troféu egoísta para vocês. Parabéns!" Meu pai me deu razão e pediu desculpas. Minha mãe, no entanto, ficou horrorizada com minha gritaria, afinal de contas, eu descontei o ódio do século nas palavras de baixo calão que proferi quando eles abriram a porta. Após a tempestade, o clima do quarto ficou pesado. Ninguém falava com ninguém. Eu, de tanto gritar, perdi a voz e as forças. Adormeci. Eram só sete horas da noite. Incrível como todas as vezes que perco a paciência, adormeço logo em seguida. Há de ter uma explicação para isso. Ainda não a descobri, no entanto.

Para amenizar a situação, meu pai propôs uma caminhada pela avenida de lojas de roupas. Logo me animei. O clima hostil foi melhorando pouco a pouco. Na hora de dormir, pedi desculpas a minha mãe pela gritaria. Sempre me sinto culpada quando a faço chorar. Ela, que mesmo machucada por dentro, continua a fazer tudo por mim. Na noite do escarcéu, ela me cobriu, pois eu estava com frio, e ainda por cima me ofereceu seu moletom. Nem mesmo a maior das orações consegue me fazer sentir menos pior quando isso acontece. E olha que situações como essa já aconteceram várias vezes. Pois é, a culpa mental já me pune o suficiente. Não preciso de carma algum, pois já tenho minha consciência pesada. 


Quando dou valor demais aos detalhes fúteis, acabo me sentindo mal depois. Essa gritaria toda poderia ter sido evitada, por exemplo, caso eu não tivesse descido do quarto só para falar com o atendente do hotel sobre um guarda-chuva perdido. Sim, um mísero guarda-chuva. Minha mãe o havia comprado nas ruas de Roma, após uma baita de uma tempestade, mas, infelizmente, deixou-o no hall do hotel e o mesmo sumiu. Eu e meu pai começamos a articular medidas para punir o hotel, como, por exemplo, difamá-lo na internet. Na expectativa de reduzir ao máximo o estresse dos meus pais, resolvi descer e pedir uma explicação plausível para o atendente, afinal de contas, não havia sido culpa da minha mãe: ela não havia esquecido o guarda-chuva no hall e, sim, havia somente o depositado no porta guarda-chuvas - isso após a recepcionista ter fortemente a encorajado a deixá-lo lá, tendo em vista que o mesmo estava molhado. Enquanto eu estava lá embaixo, meus pais se preparavam para sair. Quando eu finalmente desisti de resolver o problema - pois vi que não daria futuro - e resolvi subir para sairmos juntos, eles desceram. Nos desencontramos e, infelizmente, eles não me esperaram e saíram sem mim.


Foi só uma rápida saidinha, mas já foi o suficiente para me irritar ao máximo. Tudo isso devido a um guarda-chuva desaparecido. Sim, um guarda-chuva foi o estopim para colocar meus nervos à flor da pele. Valeu a pena? Não mesmo. Nunca vale a pena se estressar por pouco. Ou melhor, nunca vale a pena se estressar. No dia seguinte, minha mãe o esqueceu em um bar. Só fomos dar falta dele um bom tempo depois. Minha mãe achou que ele estava "zicado". Já eu só conseguia pensar na minha crise histérica por um motivo bobo. No fim, voltamos ao bar e recuperamos o danado do guarda-chuva. Estou no avião, indo para Lisboa, e ele está aqui, do meu lado. Minha mãe o carrega para cima e para baixo. Virou um mimo. Devo confessar, no entanto, que pelo menos ele nos foi útil muitas vezes em Milão. Chovia bastante e ele logo abrigava nós três para cima e para baixo. Guarda-chuva é um saco de carregar, mas ajuda quando precisamos. O mesmo acontece com os nossos problemas: carregamo-los para quase todos os lugares, sempre reclamando do peso e do incômodo. No entanto, no fim, eles nos ajudam a crescer. Tudo que é negativo tem um lado positivo. Inclusive minhas crises de nervo: ao menos posso escrever sobre elas.