quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

SOBRE ANSIEDADE, PÂNICO E METAS

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Fui parar na emergência do Hospital do Coração de Brasília. Eu tinha certeza que estava tendo um ataque cardíaco. Minha respiração estava curta, meu coração batia muito rápido e eu estava tonta. Também tinha tremores nas mãos, nas pernas e nos pés. Meu corpo formigava. Eu chorava descontroladamente. Minha mãe, estarrecida, não sabia o que fazer. Ela me acompanhou no hospital porém. Após feitos todos os exames, descartou-se a possibilidade de algum problema cardíaco. Eu estava tendo um ataque de pânico. O mais curioso era que aquilo já me havia acontecido antes, e eu nunca tinha pensado que poderia ser isso. Ou melhor, já cheguei a pensar sim, pois pesquiso muito a respeito de tudo. No entanto, ultimamente, meu mal estar era geral e constante, a ponto de eu pensar realmente que eu iria morrer - fosse pelas mãos de alguém ou pelas minhas próprias.

O médico me passou um ansiolítico, logo de cara. Eu, que sempre fora contra remédios controlados, fiquei assustada. Não queria tomá-lo de maneira alguma. Rejeitei-o por semanas, tentando terapias alternativas como ioga, pilates, massagem relaxante, florais, fitoterápicos e psicólogo. No entanto, após perceber que eu não estava melhorando de maneira alguma (pelo contrário, as crises só vinham piores e os sintomas de ansiedade estavam cada vez mais presentes), eu implorei para minha mãe que comprasse logo o remédio para eu ter alguma paz dentro de mim. Todas as noites, antes de dormir, eu chorava como um bebê. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas tinha a certeza de que, se algo não fosse feito, eu entraria em uma depressão muito grande.

Eu, que sempre fora alegre e independente, vi-me como uma criancinha indefesa, precisando de ajuda o tempo todo. O ápice foi quando eu tive uma crise dirigindo, no meio da EPTG - uma estrada aqui do Distrito Federal - que me fez parar o carro bruscamente e ligar para minha mãe aos prantos para que ela me buscasse de táxi e voltasse dirigindo meu carro. Que merda estava acontecendo? Eu não me via capaz nem mesmo de dirigir mais. Eu queria sumir, eu queria voltar atrás e não ter feito metade das coisas que fiz.

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Sim, eu fiz muitas coisas erradas nesta vida. Não vale a pena escrever sobre elas aqui, até mesmo porque eu nem sei quem vai ler este texto - muito provavelmente alguém da minha família o lerá. Longe de querer ser puritana, eu só conseguia pensar que tudo o que estava acontecendo na minha vida era algum tipo de carma ou chamado de Deus para eu largar a vida errada que estava levando. Ao mesmo tempo, eu pensava como eu estava sendo injustiçada, uma vez que muitas pessoas fazem coisas bem piores que eu e continuam bem e felizes, amando como se não houvesse amanhã.

Após muita reflexão, decidi mudar radicalmente. Cortei o álcool, o cigarro e me distanciei de más companhias. Deixei de ir em todas as festas, fui ficando mais seletiva e mais “ranzinza”. Percebi que muitos se distanciaram de mim por causa da minha doença. Infelizmente, eu não conseguia aceitar aquilo muito bem. No entanto, com o tempo, eu percebi que não adiantava nada eu querer a aprovação alheia. Ninguém vai gostar de você porque você pede ou se esforça por isso. Gostar é natural. Simplesmente acontece. E, quem gosta de verdade, gosta na saúde e na doença.

Comecei a tomar o ansiolítico - que também é antidepressivo - e as crises só pioraram. Eu estava no período de adaptação do remédio. A maioria das pessoas que iniciam um tratamento para pânico ou ansiedade com remédios têm pioras nos quadros nas primeiras semanas. Faltei o trabalho muitas vezes. Aquilo me matava por dentro. Eu não queria ser irresponsável, eu não queria ser uma pobre coitada que não conseguia sair de casa por causa de uma doença da mente. Eu não queria que achassem que o que eu tinha era frescura - muito embora até meu pai chegou a cogitar isso.

Para não parecer tão relaxada, pedi à minha mãe que me acompanhasse até o trabalho todos os dias. Ela foi um anjo e acabou aceitando. Sim, ela me levou ao trabalho durante muitos dias, até que eu começasse a me sentir forte o suficiente para ir sozinha - de metrô, claro, pois eu ainda não podia dirigir. Lágrimas escorrem em minha face quando escrevo isto. Não é fácil lembrar dos períodos mais sombrios da minha vida. Ainda é tudo tão recente…

Conversei com minha melhor amiga - que também teve crise do pânico e ainda toma remédio - sobre minha vontade de escrever sobre minha doença. Ela disse que também queria escrever sobre a dela, mas que ainda não estava preparada. Se ela não estava, quem sou eu? No entanto, 2016 está acabando e eu não podia deixar de compartilhar minhas tristezas com vocês. A vida não é só a beleza do instagram e do facebook. Aqueles sorrisos em minhas fotos não são falsos, tampouco constantes. Sou uma pessoa alegre e abençoada, mas tenho muitos momentos de fraqueza. Este ano, definitivamente, foi um ano de muitas perdas e tristezas, mas eu não vou desistir assim tão fácil.

Não posso dizer que já estou 100% curada. Na verdade, a luta é contínua. Quem tem transtorno de ansiedade vai conviver com isto para sempre. Mas, felizmente, estou aprendendo a me conhecer melhor e a valorizar quem está do meu lado de verdade. Há momentos em que fraquejo e quero desistir de tudo, jogar tudo pro alto e me mandar daqui. Já pensei em cometer suicídio, mas o pensamento logo se afasta da minha mente, porque tenho um amor imenso pela minha vida e pelas pessoas que me amam de verdade. 

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Ainda não estou totalmente convicta das razões pelas quais esta doença me acometeu, mas, analisando bem, eu já estava doente há um bom tempo. Eu só estava protelando com a barriga, fingindo que nada estava acontecendo. Até que um dia a casa caiu e eu me vi totalmente desamparada. A fé me ajudou - e muito. Sou e sempre fui uma mulher de muita fé. Falem o que quiserem de Deus, mas eu O amo com todas as minhas forças e sei que, sem ele, eu não estaria onde estou hoje. São muitas dúvidas a respeito do que eu passei. Talvez elas nunca sejam sanadas, pois não podem ser desvendadas.

Ainda me recupero e torço para que eu não caia na tentação de viver uma vida errada novamente. O mundo me diz tantas coisas que eu fico confusa e não sei o que fazer. Na hora de dar conselho, todo mundo vira médico e psicólogo. É difícil escutar o coração. É difícil ser racional. É difícil equilibrar as emoções. Na verdade, meu maior desejo em 2017 é ter equilíbrio. Equilíbrio emocional, físico, psíquico e espiritual. Eu, que sempre me considerei equilibrada e sempre desejei equilíbrio aos outros, encontrei-me totalmente desequilibrada neste ano. Que em 2017 tudo se ajeite. Fé, fé e mais fé.