sexta-feira, 11 de agosto de 2017

SOBRE MINHA SAÚDE: PURIFICAÇÃO & AMADURECIMENTO

Vocês já desmaiaram alguma vez na vida? Eu já. Várias vezes. E, dessa última vez, parecia que eu havia morrido. Acordei com a visão ainda turva e, de repente, uma multidão estava a minha volta. Demorei para me situar. Quando voltei às faculdades mentais, percebi que estava no Ceubinho, na universidade de Brasília (UnB). Minha amiga, Judith, olhava para mim com piedade, querendo chorar. Vi que ela estava mais desesperada que todos ali. Eu, sem ainda entender muita coisa, tentei me levantar, mas não me deixaram. Vieram com um saco de gelo e colocaram embaixo da minha cabeça. Foi aí que percebi que eu estava sangrando. E muito.

Quis olhar para trás para ver o estrago no chão da universidade, mas não me deixaram. Disseram que eu iria me impressionar com a cena. Aparentemente, a cabeça, por ser uma região muito irrigada, solta sangue até não poder mais. Alguns minutos se passaram e um bombeiro veio me fazer algumas perguntinhas: onde eu morava, como eu me chamava, qual era o nome dos meus pais, etc. Tudo ok. Ligaram para a ambulância. Eu pensei: meu Deus, mas pra que ambulância? Foi só um desmaio! Foi aí que minha cabeça começou a doer e eu percebi que não tinha sido só um desmaio. Eu havia caído de cabeça na quina de uma máquina de açaí e havia feito um grande estrago.

Liguei para o menino que eu ficava na época, que era professor da UnB e estava dando aula no bloco ao lado. Ele veio assim que recebeu o recado, mas a ambulância já havia chegado e pedido para que eu fosse com os médicos. Meus pais já haviam sido contactados e estavam indo para o hospital também. Fiquei imaginando a cena da minha mãe recebendo a notícia. Coitada! Cheguei no hospital, mandaram-me lavar a cabeça no banheiro (eu, que sou loira, havia me tornado ruiva de tanto sangue que havia em meus cabelos), e, sem muito sucesso de tirar a crosta sanguínea das minhas madeixas, fui para a cama levar anestesia para concluir o processo. Cortaram um pedaço do meu cabelo (tricotomia) e deram os pontos.

Eu já estava medicada e só faltava fazer a tomografia. Quando meu pai me viu pela primeira vez, gritou: você está gorda! Precisa voltar a comer carne e se exercitar! É por isso que desmaiou! Aquilo que deixou bem chateada. Tudo o que eu menos queria ouvir no momento era que eu estava acima do peso. Eu sabia que não estava gorda. A verdade é que meus pais têm uma genética muito boa e são bem magros. Sendo assim, qualquer pessoa que tenha um corpo normal já é considerada gorda para eles. Mas sei que meu pai quer o meu bem e falou aquilo para me ajudar. Eu realmente estava exagerando muito na comida, na bebida e, principalmente, nos doces.

Fonte: Instagram @nataliaribeiro
Eu não comia carne havia oito meses. Estava me sentindo bem daquele jeito. Nunca gostei muito de carne. Sempre preferi carboidratos e bebidas alcoólicas. Mas, com a pressão dos familiares e o desmaio, tive que voltar a comer carne. Como só peixe. Quase nunca como frango ou carne vermelha, mesmo trabalhando com gastronomia. Não gosto mesmo. Mas o que eu não sabia era que meu pai estava certo: eu estava gorda, mas não fisicamente, e, sim, mentalmente. Eu estava desenvolvendo uma compulsão por doces para compensar a falta de carne. Eu comia doce em todas as refeições do dia. Café da manhã era panqueca de doce de leite. Almoço sempre tinha sorvete ou algo bem açucarado. Jantar, a mesma coisa. Chocolate, petit gateau, mousses...
Eu me sentia livre comendo todos esses doces porque eu havia sido, durante três anos, escrava da academia. Comia de três em três horas, muita proteína animal, e quase nada de doce. Quando me libertei e vi que eu não engordava fácil, acabei relaxando. Acontece que a conta um dia vem, seja ela na balança ou na saúde. No meu caso, veio na saúde. Meu desmaio foi fruto de uma doença que já estava instalada em mim há muito tempo, mas eu não percebia – ou insistia eu não perceber. O pré-diabetes – ou resistência insulínica.

Eu tinha tonturas, falta de ar, sensação de pânico, palpitações, sede excessiva, fome excessiva e, quando pesquisava na internet sobre isso, ignorava os prognósticos. Todos eles me diziam que eu tinha diabetes, mas eu comentava com meus amigos e ninguém acreditava, afinal de contas eu era jovem, magra e saudável. Mas a saúde está muito além da aparência física. Eu fazia exames de sangue e minha glicose dava dentro dos limites. O grande problema é que essa doença é traiçoeira e difícil de ser descoberta: é necessário fazer a curva glicêmica – exame que dura três horas no laboratório – para descobri-la. E, mesmo assim, às vezes ainda é necessária a análise de um médico, porque deve ser feito um cálculo para saber se a quantidade de insulina está correta. Eu, por exemplo, quando vi meu resultado da curva glicêmica, achei que estava tudo certo, mas minha cardiologista me informou que não estava.

Quando recebi a notícia, chorei a tarde inteira. O que seria dos meus jantares, dos meus almoços e dos meus doces? Eu reconhecia que estava viciada em açúcar, mas, como todo viciado, eu não queria largar o vício. Passei uma semana enrolando para largar o açúcar. Mas, quando me cansei das tonturas e do mal estar, resolvi cortar. Minha médica disse que eu podia comer doce uma vez ao dia. Já me sentia privilegiada por isso. Diabéticos mesmo precisam cortar de vez. Eu, no entanto, podia ao menos comer uma vez por dia. Sou realmente privilegiada.

Hoje, alguns meses após a descoberta, vivo num eterno impasse: quero cortar o doce de vez, mas não posso devido  a minha profissão e devido a uma filosofia de vida que tenho: equilíbrio. Penso que, se eu cortar o doce de vez, vou ficar neurótica e, logo logo, vou querer voltar a comer doce como uma maníaca. Sendo assim, prefiro comer uma vez ao dia ou pular um dia para comer duas vezes no dia seguinte. Ainda passo um pouco mal com os exageros alimentares que faço, mas não tanto quanto antes. Estou aprendendo a conhecer meu organismo.

Ainda estudo a possibilidade de voltar para a dieta vegetariana – com acompanhamento de nutricionista. Não me revoltei com a doença. Apenas a aceito. Passo por poucas e boas de vez em quando: sensação de desmaio, sudorese e pânico. Mas faz parte da vida e aceito tudo. Sou resiliente. Sou forte. Sou amada. Sou abençoada. Acredito que isso tenha chegado a mim por algum motivo. Espero que vocês entendam minha decisão de ter voltado a comer carne – fui muito criticada por ter sucumbido à sociedade – e espero que tomem este texto como uma lição: cuidem de seus corpos, de suas mentes e de suas almas. Não deixem a doença tomar conta de vocês. Mas, se tomar, aceitem-na. Doenças purificam e amadurecem.